sexta-feira, 29 de julho de 2011

A origem dos Espíritos humanos

Neste artigo dissertarei sobre hipóteses que já foram levantadas na codificação espírita sobre a origem dos Espíritos humanos; alguns livros destinados ao público espírita também serão abordados. Ele surgiu como um aprofundamento natural requerido após as publicações dos artigos “As almas e os Espíritos” e “Os instintos” onde, no primeiro, teci algumas observações a respeito das características das almas como, por exemplo, a da necessidade da existência de mecanismos naturais que permitam o armazenamento das informações específicas de cada individualidade, mecanismo esse que serviria como base segura para a estabilização e evolução das almas; no segundo artigo abordei a questão dos instintos, com atenção especial na uniformidade dos instintos carnais existentes em cada espécie, fato que não passou despercebido por Kardec e que torna evidente ser a origem dos instintos uma fonte externa às individualidades, pois se nelas tivesse sua origem a tendência à diversificação sobrepujaria facilmente a uniformidade essencial que lhe confere confiabilidade; sobre essa característica eu defendi a hipótese de a explicação mais plausível para ela ser a que leva em conta a passagem das informações instintivas pela via hereditária, ou seja, pelo DNA ou por outras formas ainda desconhecidas deste tipo de transferência de informações. Pela transmissão hereditária teríamos, no curto prazo, a replicação confiável dos instintos necessários a cada espécie, e, no longo prazo, a pequena flexibilidade que possibilitaria a evolução das espécies, via seleção natural.

Sobre a origem dos Espíritos humanos a codificação não se posicionou de forma definitiva sobre ela, ao contrário, deixou clara a sua limitação quanto sua capacidade para atingir a resolução desse mistério. Não sou eu que estou dizendo isso, foi o próprio codificador que firmou esse posicionamento e se manteve fiel a ele desde a confecção do “O Livro dos Espíritos” ao fechamento do seu último livro doutrinário: o “A Gênese”. Essa prudência deve ter surgido de informações conflitantes que recebeu dos Espíritos, mas ainda assim ela não o impediu de inserir trechos francamente favoráveis à hipótese que viria a ser a preferida entre os espíritas, a de o princípio inteligente estagiar nas formas mais simples de vida, transmigrando sempre para espécies mais evoluídas até se transformar em um Espírito humano. Comentarei sobre as implicações referentes a essa hipótese depois; agora vou deixar com vocês as palavras de Allan Kardec, que é quem melhor pode explanar sobre as dúvidas que rondaram a sua mente e que não são muito diferentes das que rondam as nossas até hoje.

O Livro dos Espíritos

(trecho do comentário da questão 613)

“O ponto de partida do Espírito é uma dessas questões que se ligam ao princípio das coisas e estão nos segredos de Deus. Não é dado ao homem conhecê-las de maneira absoluta, e ele só pode fazer, a seu respeito, meras suposições, construir sistemas mais ou menos prováveis. Os próprios Espíritos estão longe de tudo conhecer, e sobre o que não conhecem podem ter também opiniões pessoais mais ou menos sensatas.

É assim que nem todos pensam da mesma maneiras a respeito das relações existentes entre o homem e os animais. Segundo alguns, o Espírito não chega ao período humano senão depois de ter sido elaborado e individualizado nos diferentes graus dos seres inferiores da Criação. Segundo outros, o Espírito do homem teria sempre pertencido à raça humana, sem passar pela fieira animal. O primeiro desses sistemas tem a vantagem de dar uma finalidade ao futuro dos animais, que constituiriam assim os primeiros anéis da cadeia dos seres pensantes; o segundo é mais conforme a dignidade do homem e pode resumir-se da maneira seguinte:

As diferentes espécies de animais não procedem intelectualmente uma da outras, por via de progressão; assim, o Espírito da ostra não se torna sucessivamente do peixe, da ave, do quadrúpede e do quadrúmano; cada espécie é um tipo absoluto, física e moralmente, e cada um dos seus indivíduos tira da fonte universal a quantidade de princípio inteligente que lhe é necessária, segundo a perfeição dos seus órgãos e a tarefa que deve desempenhar nos fenômenos da Natureza, devolvendo-a a massa após a morte. Aqueles dos mundos mais adiantados que o nosso são igualmente constituídos de raças distintas, apropriadas às necessidades desses mundos e ao grau de adiantamento dos homens de que são auxiliares, mas não procedem absolutamente dos terrenos, espiritualmente falando. Com o homem, já não se dá o mesmo.

Do ponto de vista físico, o homem constitui evidentemente um anel da cadeia dos seres vivos; mas, do ponto de vista moral, há solução de continuidade entre o homem e o animal. O homem possui, como sua particularidade, a alma ou Espírito, centelha divina que lhe dá o senso moral e um alcance intelectual que os animais não possuem; é o ser principal, preexistente e sobrevivente ao corpo, conservando a sua individualidade. Qual é a origem do Espírito? Onde está o seu ponto de partida? Forma-se ele do princípio inteligente individualizado? Isso é um mistério que seria inútil procurar penetrar e sobre o qual, como dissemos, só podemos construir sistemas.”

No livro “A Gênese”, o último que Kardec escreveu e no qual apontou as suas amadurecidas opiniões a respeito da doutrina, ele qualificou a hipótese da transmigração entre espécies animais como apenas um sistema. Desta feita ele sequer citou os Espíritos como autores, disse apenas ser esse um sistema de filósofos espiritualistas, o que, na minha visão, revela a fragilidade que essa hipótese possuía em sua mente. Vejam:

A Gênese

(Cap. XI)

“23. - Tomando-se a Humanidade no grau mais ínfimo da escala espiritual, como se encontra entre os mais atrasados selvagens, perguntar-se-á se é aí o ponto inicial da alma humana."

"Na opinião de alguns filósofos espiritualistas, o princípio inteligente, distinto do princípio material, se individualiza e elabora, passando pelos diversos graus da animalidade. É aí que a alma se ensaia para a vida e desenvolve, pelo exercício, suas primeiras faculdades. Esse seria para ela, por assim dizer, o período de incubação. Chegada ao grau de desenvolvimento que esse estado comporta, ela recebe as faculdades especiais que constituem a alma humana. Haveria assim filiação espiritual do animal para o homem, como há filiação corporal."

"Este sistema, fundado na grande lei de unidade que preside à criação, corresponde, forçoso é convir, à justiça e à bondade do Criador; dá uma saída, uma finalidade, um destino aos animais, que deixam então de formar uma categoria de seres deserdados, para terem, no futuro que lhes está reservado, uma compensação a seus sofrimentos. O que constitui o homem espiritual não é a sua origem: são os atributos especiais de que ele se apresenta dotado ao entrar na humanidade, atributos que o transformam, tornando-o um ser distinto, como o fruto saboroso é distinto da raiz amarga que lhe deu origem. Por haver passado pela fieira da animalidade, o homem não deixaria de ser homem; já não seria animal, como o fruto não é a raiz, como o sábio não é o feto informe que o pôs no mundo."

"Mas, este sistema levanta múltiplas questões, cujos prós e contras não é oportuno discutir aqui, como não o é o exame das diferentes hipóteses que se têm formulado sobre este assunto. Sem, pois, pesquisarmos a origem do Espírito, sem procurarmos conhecer as fieiras pelas quais haja ele, porventura, passado, tomamo-lo ao entrar na humanidade, no ponto em que, dotado de senso moral e de livre-arbítrio, começa a pesar-lhe a responsabilidade dos seus atos.”

Como eu havia dito, apesar de o seu lado racional ter optado pela imparcialidade, Kardec, em dado momento, enviou sinais nada imparciais, e fez isso ao selecionar as perguntas e respostas do capítulo XI do O Livro dos Espíritos (Dos Três Reinos), o que leva muitas pessoas a penderem fortemente para a tese de a evolução do princípio inteligente se dar via reencarnação, pulando de espécie em espécie animal até chegar ao homem, quando se torna Espírito. O que mais me intriga é qual teria sido o motivo pelo qual Kardec colocou essa versão em evidência no principal livro da Doutrina Espírita sem assumi-la de forma definitiva. Provavelmente tenha optado por publicar a tese mais palatável ao público, apesar de não estar totalmente convencido dela, e por esse mesmo motivo tenha se esquivado de examinar os prós e, especialmente, os contras que ele próprio reconheceu que existiam nela.

O capítulo XI, citado anteriormente, mereceria ser transposto em sua íntegra para este artigo, mas isso o tornaria por demais extenso, motivo pelo qual colocarei apenas os seus pontos principais; são eles:

- O que diz que os animais possuiriam uma espécie de alma e que elas sobreviveriam à morte dos corpos físicos (questões 597 e 598).

- O que diz que, sobrevivendo à morte, as almas dos animais conservariam a sua individualidade, mas não a consciência de si; que elas seriam classificadas e utilizadas quase imediatamente, por Espíritos incumbidos dessa tarefa; e que elas, na no mundo espiritual, não possuiriam tempo para entrar em relação com outras criaturas (questões 598 e 600).

- O que diz que os animais estariam sujeitos a uma lei progressiva, como o homem, e que diz que nos mundos superiores, onde o homem é mais adiantado, eles também o seriam (questão 601).

- O que diz que, diferentemente do homem, que progride por ato da própria vontade”, as almas dos animais progrediriam “pela força das coisas, razão por que não estariam sujeitos à expiação” (questão 602).

- O que diz que a inteligência é uma propriedade comum a homens e animais, mas que os animais possuiriam somente a inteligência da vida material e que no homem a inteligência proporcionaria a vida moral (questão 604 a).

- O que diz que a inteligência dos homens e dos animais seriam provenientes de uma mesma origem, o elemento inteligente universal, ressaltando que a do homem teria passado por uma elaboração que a colocaria acima da do animal (questões 606 e 606 a).

- O que diz que a alma do homem, em sua origem, teria passado por uma série de existências antes de entrar na humanidade (questão 607)

As questões 607-a/b não poderiam deixar de serem transpostas em sua íntegra sem o risco de terem as suas implicações amputadas de alguma forma.

607 a) - Parece que, assim, se pode considerar a alma como tendo sido o princípio inteligente dos seres inferiores da criação, não?

“Já não dissemos que todo em a Natureza se encadeia e tende para a unidade?

Nesses seres, cuja totalidade estais longe de conhecer, é que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco e se ensaia para a vida, conforme acabamos de dizer. É, de certo modo, um trabalho preparatório, como o da germinação, por efeito do qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna Espírito. Entra então no período da humanização, começando a ter consciência do seu futuro, capacidade de distinguir o bem do mal e a responsabilidade dos seus atos. Assim, à fase da infância se segue a da adolescência, vindo depois a da juventude e da madureza. Nessa origem, coisa alguma há de humilhante para o homem. Sentir-se-ão humilhados os grandes gênios por terem sido fetos informes nas entranhas que os geraram? Se alguma coisa há que lhe seja humilhante, é a sua inferioridade perante Deus e sua impotência para lhe sondar a profundeza dos desígnios e para apreciar a sabedoria das leis que regem a harmonia do Universo.

Reconhecei a grandeza de Deus nessa admirável harmonia, mediante a qual tudo é solidário na Natureza. Acreditar que Deus haja feito, seja o que for, sem um fim, e criado seres inteligentes sem futuro, fora blasfemar da Sua bondade, que se estende por sobre todas as suas criaturas.”

b) Esse período de humanização principia na Terra?

“A Terra não é o ponto de partida da primeira encarnação humana. O período da humanização começa, geralmente, em mundos ainda inferiores à Terra. Isto, entretanto, não constitui regra absoluta, pois pode suceder que um Espírito, desde o seu início humano, esteja apto a viver na Terra. Não é freqüente o caso; constitui antes uma exceção.”

A um leitor desavisado, depois de ler estes pontos, restaria alguma dúvida sobre a origem dos Espíritos humanos? Bem, o que fica claro, para quem faz uma leitura completa da codificação, é que Kardec os colocou sem ter convicção do que escrevia e acabou deixando nesse mesmo capítulo pistas sobre as suas desconfianças, uma delas está em uma possível impossibilidade da transformação da alma animal em alma humana; essa desconfiança esta refletida neste comentário, onde Kardec expôs, sem perguntar:

604. Pois que os animais, mesmo os aperfeiçoados, existentes nos mundos superiores, são sempre inferiores ao homem, segue-se que Deus criou seres intelectuais perpetuamente destinados à inferioridade, o que parece em desacordo com a unidade de vistas e de progresso que todas as suas obras revelam.

“Tudo em a Natureza se encadeia por elos que ainda não podeis apreender. Assim, as coisas aparentemente mais díspares têm pontos de contacto que o homem, no seu estado atual, nunca chegará a compreender. Por um esforço da inteligência poderá entrevê-los; mas, somente quando essa inteligência estiver no máximo grau de desenvolvimento e liberta dos preconceitos do orgulho e da ignorância, logrará ver claro na obra de Deus. Até lá, suas muito restritas idéias lhe farão observar as coisas por um mesquinho e acanhado prisma. Sabei não ser possível que Deus se contradiga e que, na Natureza, tudo se harmoniza mediante leis gerais, que por nenhum de seus pontos deixam de corresponder à sublime sabedoria do Criador.”

No comentário da questão 613, ao falar sobre a metempsicose, ele deixa exposta novamente as suas dúvidas ao condicionar a possibilidade de passagem da alma de um ser para outro a uma eventual compatibilidade reprodutiva. Como sabemos, as leis reprodutivas são bastante rígidas e esse tipo de condição derruiria qualquer possibilidade de a evolução das almas poder se dar via migração entre espécies. Veja:

“Seria verdadeira a metempsicose, se indicasse a progressão da alma, passando de um estado a outro superior, onde adquirisse desenvolvimentos que lhe transformassem a natureza. É, porém, falsa no sentido de transmigração direta da alma do animal para o homem e reciprocamente, o que implicaria a idéia de uma retrogradação, ou de fusão. Ora, o fato de não poder semelhante fusão operar-se, entre os seres corporais das duas espécies, mostra que estas são de graus inassimiláveis, devendo dar-se o mesmo com relação aos Espíritos que as animam. Se um mesmo Espírito as pudesse animar alternativamente, haveria, como conseqüência, uma identidade de natureza, traduzindo-se pela possibilidade da reprodução material.”

Não foi a toa que Allan Kardec disse que esse sistema levantava múltiplas questões; ele estava certo. Outro sistema que levanta questões bastante interessantes para serem desenvolvidas aqui é o proposto pelo Espírito André Luiz, no livro “Evolução em Dois Mundos, sistema que poderia se encaixar perfeitamente no que Kardec chamou de “opiniões pessoais mais ou menos sensatas”. Vamos analisá-lo nos próximos parágrafos, pois ele nos traz ótimos exemplos para passarmos pelo cadinho da razão.

O sistema de André Luiz se baseia no desenvolvimento contínuo da vida, nos dois planos, o espiritual e o físico, com a elaboração lenta dos automatismos que regem a vida, automatismos esses que seriam modelados por entidades as quais ele chamou de “arquitetos divinos”, “engenheiros siderais” e outros nomes similares. Selecionei quatro trechos do seu livro como ilustração:

1º trecho

“Os dias da Criação, assinaladas nos livros de Moisés, equivalem a épocas imensas no tempo e no espaço, porque o corpo espiritual que modela o corpo físico e o corpo físico que representa o corpo espiritual constituem a obra de séculos numerosos, pacientemente elaborada em duas esferas diferentes da vida, a se retomarem no berço e no túmulo com a orientação dos Instrutores Divinos que supervisionam a evolução terrestre.”

“Com semelhante enunciado não diligenciamos, de modo algum, explicar a gênese do espírito, porque isso, por enquanto, implicaria arrogante e pretensiosa definição do próprio Deus.”

“Propomo-nos simplesmente salientar que a lei da evolução prevalece para todos os seres do Universo, tanto quanto os princípios cosmocinéticos, que determinam o equilíbrio dos astros, são, na origem, os mesmos que regulam a vida orgânica, na estrutura e movimento dos átomos. O veículo do espírito, além do sepulcro, no plano extrafísico ou quando reconstituído no berço, é a soma de experiências infinitamente repetidas, avançando vagarosamente da obscuridade para a luz. Nele, situamos a individualidade espiritual, que se vale das vidas menores para afirmar-se, das vidas menores que lhe prestam serviço, dela recolhendo preciosa cooperação para crescerem a seu turno, conforme os inelutáveis objetivos do progresso.”

2º trecho

“Como se estruturaram os cromatídeos nos cromossomos é problema que, de todo, por enquanto, nos escapa ao sentido, mas sabemos que os Arquitetos Espirituais, entrosados à Supervisão Celeste, gastaram longos séculos preparando as células que serviriam de base ao reino vegetal, combinando nucleoprotemas a glúcides e a outros elementos primordiais, a fim de que se estabelecessem um nível seguro de forças constantes, entre a bagagem do núcleo e do citoplasma.”

“Com semelhante realização, o princípio inteligente começa a desenvolver-se do ponto de vista fisiopsicossomático.”

“Não apenas a forma física do futuro promete então revelar-se, mas também a forma espiritual.”

3º trecho

“Através dos estágios nascimento-experiência-morte-experiência-renascimento, nos planos físico e extrafísico, as crisálidas de consciência, dentro do princípio de repetição, respiram sob o sol como seres autótrofos no reino vegetal, onde as células, nas espécies variadas em que se aglutinam, se reproduzem de modo absolutamente semelhante.”

“Nesse domínio, o princípio inteligente, servindo-se da herança, e por intermédio das experiências infinitamente recapituladas, habilita-se à diferenciação nos flagelados, ascendendo progressivamente à diferenciação maior na escala animal, onde o corpo espiritual, à feição de protoforma humana, já oferece moldes mais complexos, diante das reações do sistema nervoso, eleito para sede dos instintos superiores, com a faculdade de arquivar reflexos condicionados.”

4º trecho

“DESCENDÊNCIA E SELEÇÃO — É justo lembrar, no entanto, que os trabalhos gradativos da descendência e da seleção, que encontrariam em Lamarck e Darwin expositores dos mais valiosos, operavam-se em dois planos.”

“As crisálidas de consciência dos reinos inferiores, mergulhadas em campo vibratório diferente pelo fenômeno da morte, justapunham-se às células renascentes que continuavam a servi-las, colhendo elementos de transmutação para a volta à esfera física, pela reencarnação compulsória, sob a orientação das Inteligências Sublimes que nos sustentam a romagem, circunstância que nos compele a considerar que o transformismo das espécies, como também a constituição de espécies novas, em se ajustando a funções fisiológicas, expansão e herança, baseiam-se no mecanismo e na química do núcleo e do citoplasma, em que as energias fisiopsicossomáticas se reúnem.”

As questões que esse sistema levanta são exemplares para nos dar uma ideia do quanto esse assunto é complexo. A primeira dessas questões é a que fala sobre a necessidade da existência de Espíritos no comando desse processo. Ora, se estamos lidando com o processo de geração de Espíritos a lógica nos diz que ele não deveria depender de Espíritos já existentes, pois se dependesse, como estes teriam sido gerados? No caso do sistema de André Luiz a presença das tais “Inteligências Sublimes” cairiam nesse caso, a não ser que se admita a hipótese de elas não serem, na realidade, Espíritos como nós. Na literatura de Kardec também podemos encontrar esse tipo de problema se associarmos a tese da evolução do princípio inteligente se dar via reencarnação, pulando de espécie em espécie animal até chegar ao homem, com a descrição que diz que as almas dos animais são classificadas e utilizadas, quase imediatamente, por Espíritos incumbidos dessa tarefa. É o velho dilema do ovo e da galinha que tem por única solução satisfatória o fato de nem um e nem outro terem surgido primeiro, mas de ambos terem surgido por um processo anterior e diferente. Particularmente, não vejo com bons olhos a necessidade de Espíritos tendo que coordenar os processos necessários para a geração de novos Espíritos, pois acredito que as leis naturais e divinas já dariam conta dessa tarefa.

Essa obra de André Luiz, psicografada pelas mãos de Chico Xavier e Waldo Vieira, surgiu pela necessidade de satisfação aos evolucionistas do séc. XX, na tentativa de conciliar as teses espirituais com a ciência terrena, isso num tempo onde a teoria da evolução das espécies já havia se consolidado como verdade científica, mas o sistema proposto por ela encerra em si algumas armadilhas e a análise dessas armadilhas pode servir de parâmetro para a análise de qualquer outro sistema que trate deste assunto.

A tese de a evolução dos automatismos gerarem seres vivos cada vez mais complexos é, por si só, bem lógica e condizente com as observações da ciência, mas a evolução biológica se comporta como uma árvore com tendência constante a diversificação, gerando ramificações, ou galhos, para todos os lados, sendo que muitos deles acabam sendo podados pela seleção natural e pelas catástrofes planetárias; como, pela tese de André Luiz, essas ramificações se reproduziriam nos dois mundos, gerando os corpos espirituais que se tornariam os modeladores dos novos corpos físicos, isto implicaria em dizer que os corpos espirituais de um galho evolutivo não estariam habilitados a animar seres vivos de outros galhos, pois não teriam os automatismos apropriados para moldar corpos diferentes dos seus e também não teriam os comportamentos instintivos apropriados e imprescindíveis à vida da outra espécie. Na realidade, apesar de muitos adeptos dos ensinamentos de André Luiz defenderem a tese da migração do princípio inteligente de espécie para espécie, galgando os degraus até alcançar o estágio humano, ele, em seu sistema, acabou indo direção oposta, praticamente engessando esse tipo de flexibilidade ao colocar dificuldades que só poderiam ser superadas por de intervenções em graus inimagináveis das tais “Inteligências Sublimes”.

Volto a dizer que a tese da evolução dos automatismos gerarem seres vivos cada vez mais complexos é bem lógica, mas se tomarmos a geração dos humanos e, consequentemente, a dos Espíritos humanos, como fruto de uma ramificação evolutiva única, como aparentemente é a possibilidade que o sistema de André Luiz melhor comporta, isso resolveria a questão dos automatismos necessários a construção dos corpos humanos, mas nos colocaria diante de um outro grande problema, que seria a questão da quantidade de Espíritos humanos que poderiam ser gerados por esse processo, tendo todos eles passado por todas as etapas evolutivas que lhes legariam ou automatismos humanos. Ora, se observarmos a árvore da evolução biológica veremos que os indivíduos que dão origem a um novo ramo evolutivo estão sempre em um número reduzido, mas para a evolução biológica, conforme as premissas da ciência terrena, isto não representa problema algum porque os seres vivos da base de um ramo se reproduzem e geram os novos indivíduos que farão o ramo crescer, no entanto, se formos analisar pelo lado espiritual e levarmos em conta que cada ser vivo possuiria em si um corpo espiritual (modelador do corpo físico), que mecanismos poderiam tê-los criado em número suficiente para dar conta ao crescimento do número de seres de uma nova espécie? Se pelo sistema de André Luiz encontrar uma explicação para isso é difícil, sem ter que apelar para eternos e improváveis malabarismos dos tais “Engenheiros Siderais”, essa explicação se tornaria fácil se liberássemos as almas da tarefa de modelagem dos corpos, deixando-a por conta das leis biológicas, e admitíssemos que os instintos associados a cada espécie possam também ser transmitidos hereditariamente, pelas leis conhecidas e por eventuais leis ainda desconhecidas, desta forma teríamos uma flexibilidade que permitiria que as almas de uma ramificação evolutiva pudessem migrar para animais de outros ramos evolutivos e, eventualmente, até mesmo chegar ao ramo evolutivo humano; com essa flexibilidade até mesmo almas de outros orbes poderiam vir a habitar os animais terrenos e os seres humanos, dando suporte ao que está escrito no O Livro dos Espíritos (607 b). Infelizmente a tese de o períspirito moldar o corpo físico virou quase um dogma dentro do movimento espírita, especialmente depois que Gabriel Delanne publicou o seu “A Evolução Anímica”, e a tese de que comportamentos possam ser passados hereditariamente também não costuma ser muito bem recebida dentro deste meio. Sobre esses assuntos eu disserto mais detalhadamente nos artigos “O perispírito molda o corpo físico?” e “Os instintos”, onde coloco razões para que o leitor possa avaliar essas questões mais profundamente.

Entender as almas como focos de consciência (ou princípios inteligentes) adaptáveis aos diversos organismos permite uma flexibilidade bem compatível com a dinâmica que observamos na vida material, dinâmica essa que extingue espécies de uma hora para a outra e que faz com que algumas possam, num dado momento, multiplicar os seus indivíduos de forma desproporcional (é o caso dos humanos, atualmente), mas esse sistema não explica como teriam surgido todos esses focos de consciência. Bem... como disse Kardec, “o ponto de partida do Espírito é uma dessas questões que se ligam ao princípio das coisas e estão nos segredos de Deus, não é dado ao homem conhecê-las de maneira absoluta, e ele só pode fazer, a seu respeito, meras suposições, construir sistemas mais ou menos prováveis”; essa mesma consideração poderia ser feita em relação aos focos de consciência, precursores dos Espíritos humanos e das almas dos animais.

Muito se recorre à justiça divina quando este assunto entra em pauta e é inevitável que, ao associarmos Deus ao bem supremo e à justiça, vislumbremos um fim comum e perfeito para todos os seres por Ele criado. Em nossa limitada visão esse fim comum e perfeito só poderia ser a transformação final de todas as criaturas em Espíritos puros, ou arcanjos. A partir dessa premissa muitos logo se apressam em dizer que todos os elementos espirituais que habitam animais, vegetais e até mesmo bactérias, um dia chegariam ao estágio de arcanjos. Uma vez, acreditem, cheguei a ouvir de uma pessoa, em um fórum espírita, que todas as pedras um dia também chegariam lá; certamente esta pessoa chegou a essa conclusão baseando-se em uma das diversas adaptações de um trecho do livro “Depois da Morte”, de Léon Denis, no qual ele escreve que o “sentimento da justiça absoluta diz-nos também que o animal, tanto quanto o homem, não deve viver e sofrer para o nada. Uma cadeia ascendente e continua liga todas as criações, o mineral ao vegetal, o vegetal ao animal, e este ao ente humano”. Todas essas teorias são muito bonitas e nos deixam com uma sensação leve, ao acreditarmos nelas, mas elas possuem em si alguns problemas de lógica matemática praticamente insolúveis. Ao rapaz que radicalizou dizendo que todas as pedras um dia se tornariam arcanjos, eu apenas lhe alertei que pensasse melhor e lhe disse que, se fosse assim, deveríamos construir mais pedreiras, pois elas, ao quebrarem as pedras, conseguiriam multiplicar, no futuro, a quantidade de arcanjos (uma ironia, é claro!); mas esse rapaz foi apenas uma exceção que encontrei e que só coloquei aqui para ilustrar até onde a imaginação humana consegue chegar para justificar as suas crenças; o mais comum é encontrarmos pessoas defendendo a tese de que todas as bactérias deveriam ter, por justiça divina, um fim angelical; para os que possuem essa crença eu apenas peço para que atentem para o fato de que dentro de cada um de nós e de cada animal de grande porte existem mais bactérias do que toda a população humana do planeta (segundo estimativas elas poderiam chegar a 100 trilhões somente em nossos intestinos) e que se um animal de grande porte fosse criado visando a evolução de uma dessas pequenas criaturas outro tanto de bactérias nasceriam dentro dele criando assim uma progressão geométrica impossível de ser satisfeita a não ser por bordões fáceis como os que dizem que o universo está em expansão, o que diz que Deus sabe o que faz e o que diz que somos muito limitados para entender os mistérios do mundo.

É muito difícil tratar esses assuntos que remexem nas nossas noções mais primárias de bem e justiça, mas temos que reconhecer que esses nossas noções talvez sejam muito limitadas diante da grandeza do universo. Se só conseguimos enxergar como destino justo para uma bactéria ela vir a ser tornar humana e, posteriormente, um Espírito puro, talvez seja porque damos valor demais às individualidades, sem levarmos em conta que fazer parte de um conjunto maior talvez seja a hipótese mais natural e justa dentro da criação divina. Temos nas nossas células um exemplo perfeito de abdicação da individualidade em prol de algo maior. Neste ponto, vale a pena refletirmos de novo sobre essa resposta dada na questão 604 do O Livro dos Espíritos, resposta que já coloquei no início do artigo, mas que vale a pena colocar novamente:

“tudo em a Natureza se encadeia por elos que ainda não podeis apreender. Assim, as coisas aparentemente mais díspares têm pontos de contacto que o homem, no seu estado atual, nunca chegará a compreender. Por um esforço da inteligência poderá entrevê-los; mas, somente quando essa inteligência estiver no máximo grau de desenvolvimento e liberta dos preconceitos do orgulho e da ignorância, logrará ver claro na obra de Deus. Até lá, suas muito restritas idéias lhe farão observar as coisas por um mesquinho e acanhado prisma. Sabei não ser possível que Deus se contradiga e que, na Natureza, tudo se harmoniza mediante leis gerais, que por nenhum de seus pontos deixam de corresponder à sublime sabedoria do Criador.”

A população humana no planeta, em 1800, girava em torno de um bilhão de pessoas, em 1950 esse número situava-se na casa dos 2, 5 bilhões e em 2000 já havíamos ultrapassado a casa dos 6 bilhões, e isso deixa no ar a seguinte pergunta: 0 mundo espiritual terreno possuía um estoque tão grande assim de Espíritos para dar conta dessa demanda repentina?

Se tinha, provavelmente era uma população milenar, o que poderia até justificar o fato de alguns Espíritos da codificação terem dito que desconheciam as suas origens, pois só viam Espíritos terrenos, iguais a eles, reencarnando por aqui; isso explicaria também a raridade de relatos consistentes de lembranças de outros orbes. E se tinha esse estoque de Espíritos, também caberia a pergunta: o mundo espiritual terreno está ficando deserto?

Se não tinha, possivelmente essa grande demanda fez ressurgir os mecanismos para a geração de novos Espíritos para atender aos humanos terrestres, seja pela importação de Espíritos humanos de outros orbes, seja pela promoção de almas animais (daqui ou de outros orbes) a Espíritos humanos, ou seja pela geração de novos Espíritos no momento da concepção. De uma forma ou de outra esse aumento populacional pode estar dando aos Espíritos a oportunidade de presenciar e pesquisar sobre isso, caberia a nós colocarmos para eles novamente essa questão para ver se adquiriram novos conhecimentos.

Para finalizar, gostaria de esclarecer que a citada “geração de novos Espíritos no momento da concepção” não foi retirada do nada. Kardec também a admitia, ao menos em grau de hipótese, como ele deixou explícito nesse trecho do “A Gênese” (grifo meu):

“29. - Quando a Terra se encontrou em condições climáticas apropriadas à existência da espécie humana, encarnaram nela Espíritos humanos. Donde vinham? Quer eles tenham sido criados naquele momento; quer tenham procedido, completamente formados, do espaço, de outros mundos, ou da própria Terra, a presença deles nesta, a partir de certa época, ê um fato, pois que antes deles só animais havia. Revestiram-se de corpos adequados às suas necessidades especiais, às suas aptidões, e que, fisionomicamente, tinham as características da animalidade. Sob a influência deles e por meio do exercício de suas faculdades, esses corpos se modificaram e aperfeiçoaram é o que a observação comprova. Deixemos então de lado a questão da origem, insolúvel por enquanto; consideremos o Espírito, não em seu ponto de partida, mas no momento em que, manifestando-se nele os primeiros germens do livre-arbítrio e do senso moral o vemos a desempenhar o seu papel humanitário, sem cogitarmos do meio onde haja transcorrido o período de sua infância, ou, se o preferirem, de sua incubação. Mau grado a analogia do seu envoltório com o dos animais, poderemos diferençá-lo destes últimos pelas faculdades intelectuais e morais que o caracterizam. como, debaixo das mesmas vestes grosseiras, distinguimos o rústico do homem civilizado.”

Como é de hábito neste blog, tentei abordar todas as hipóteses possíveis de forma a deixar o leitor municiado para formar as suas próprias opiniões. Espero que tenham gostado.