terça-feira, 19 de abril de 2011

Os Instintos

Neste artigo falarei sobre os instintos naturais, tema que foi levemente abordado no artigo anterior, que trata sobre as almas e os Espíritos. Por coincidência, logo após a publicação do citado artigo, tive a oportunidade de travar um interessante debate em uma comunidade espírita no qual me deparei com várias argumentações que, apesar de serem baseadas na codificação espírita, sugeriam interpretações diversas e até mesmo opostas. Com este artigo pretendo apenas colocar de forma organizada as impressões que tenho sobre o assunto, trazendo elementos da codificação espírita para que o leitor tire as suas próprias conclusões.

Em primeiro lugar é necessário que se faça uma distinção entre as duas formas que Kardec se referiu aos instintos e para isso trago dois exemplos contidos no O Livro dos Espíritos.

Exemplo 1

605. Considerando-se todos os pontos de contacto que existem entre o homem e os animais, não seria lícito pensar que o homem possui duas almas: a alma animal e a alma espírita e que, se esta última não existisse, só como o bruto poderia ele viver? Por outra:que o animal é um ser semelhante ao homem, tendo de menos a alma espírita? Dessa maneira de ver resultaria serem os bons e os maus instintos do homem efeito da predominância de uma ou outra dessas almas?

“Não, o homem não tem duas almas. O corpo, porém, tem seus instintos, resultantes da sensação peculiar aos órgãos. Dupla, no homem, só é a Natureza. Há nele a natureza animal e a natureza espiritual. Participa, pelo seu corpo, da natureza dos animais e de seus instintos. Por sua alma, participa da dos Espíritos.”

Exemplo 2

845. Não constituem obstáculos ao exercício do livre-arbítrio as predisposições instintivas que o homem já traz consigo ao nascer?

“As predisposições instintivas são as do Espírito antes de encarnar. Conforme seja este mais ou menos adiantado, elas podem arrastá-las à prática de atos repreensíveis, no que será secundado pelos Espíritos que simpatizam com essas disposições. Não há, porém, arrastamento irresistível, uma vez que se tenha a vontade de resistir. Lembrai-vos de que querer é poder.”

No primeiro exemplo ele se refere aos instintos naturais (ou carnais), aqueles que influenciam o Espírito, quando este se encontra encarnado; no segundo ele se refere aos instintos do próprio Espírito, ou seja, a sua moral, as tendências comportamentais que o Espírito imortal adquiriu na sua história evolutiva. É importante atentar para essa diferença de significados; muitos debates acabam sendo prejudicados pela falta deste entendimento.

Os instintos dos Espíritos estão, de alguma forma, gravados neles mesmos e não serão objeto deste artigo, que pretende abordar apenas os instintos naturais (ou carnais).

Na questão 75 do O Livro dos Espíritos Kardec comenta que:

"O instinto é uma inteligência rudimentar, que difere da inteligência propriamente dita por serem quase sempre espontâneas as suas manifestações, enquanto as daquela são o resultado de apreciações e de uma deliberação.

O instinto varia em suas manifestações segundo as espécies e suas necessidades. Nos seres dotados de consciência e de percepção das coisas exteriores, ele se alia à inteligência, o que quer dizer, à vontade e à liberdade."

Em A Gênese (cap. III), Kardec tece algumas considerações bem interessantes sobre os instintos, considerações das quais eu destaco esse trecho:

“A uniformidade no que resulta das faculdades instintivas é um fato característico que forçosamente implica a unidade da causa. Se a causa fosse inerente a cada individualidade, haveria tantas variedades de instintos quantos fossem os indivíduos, desde a planta até o homem. Um efeito geral, uniforme e constante, há de ter uma causa geral, uniforme e constante; um efeito que atesta sabedoria e previdência há de ter uma causa sábia e previdente. Ora, uma causa dessa natureza, sendo por força inteligente, não pode ser exclusivamente material.

Não se nos deparando nas criaturas, encarnadas ou desencarnadas, as qualidades necessárias à produção de tal resultado, temos que subir mais alto, isto é, ao próprio Criador. Se nos reportamos à explicação dada sobre a maneira por que se pode conceber a ação providencial (cap. II, nº 24); se figurarmos todos os seres penetrados do fluido divino, soberanamente inteligente, compreenderemos a sabedoria previdente e a unidade de vistas que presidem a todos os movimentos instintivos que se efetuam para o bem de cada indivíduo. Tanto mais ativa é essa solicitude, quanto menos recursos tem o indivíduo em si mesmo e na sua inteligência. Por isso é que ela se mostra maior e mais absoluta nos animais e nos seres inferiores, do que no homem.

Segundo essa teoria, compreende-se que o instinto seja um guia seguro. O instinto materno, o mais nobre de todos, que o materialismo rebaixa ao nível das forças atrativas da matéria, fica realçado e enobrecido. Em razão das suas conseqüências, não devia ele ser entregue às eventualidades caprichosas da inteligência e do livre-arbítrio. Por intermédio da mãe, o próprio Deus vela pelas suas criaturas que nascem.”

A perfeita observação de Kardec quanto à uniformidade dos instintos dentro de uma mesma espécie animal e a sua perfeita conclusão quanto a essa característica ser um claro indício de os instintos não poderem ter como causa as individualidades e o livre-arbítrio são cruciais na avaliação dessa questão. Kardec, talvez por falta de opções mais palpáveis, subiu até Deus para buscar uma causa comum para tamanha uniformidade; ora, a lógica espírita nos diz que Deus age através das suas leis perfeitas e imutáveis, não necessitando atuar caso a caso; perante a essa lógica, quais seriam, então, as leis responsáveis pela uniformização dos instintos entre animais da mesma espécie e gênero? Na minha visão, as leis que melhor se encaixariam nesta função seriam as leis que regem as transmissões hereditárias, ou seja, as leis genéticas, que usam os nossos DNAs como forma de transmissão, e possivelmente por outras leis ainda desconhecidas da nossa ciência. Com a transmissão hereditária estaria satisfeita a premissa da uniformidade e, ao mesmo tempo, deixaria aberta a possibilidade para uma modelagem lenta e contínua dos instintos a ser promovida pelo processo de seleção natural, no qual os comportamentos mais favoráveis à reprodução e manutenção das espécies substituiriam pouco a pouco os menos favoráveis. É sempre bom lembrar que na época de Kardec a ciência ainda desconhecia o DNA e os códigos genéticos, o que não lhe permitia levantar hipóteses do tipo que levantamos hoje.

Toda vez que é levantada a possibilidade de que comportamentos possam estar escritos nas moléculas de DNA levantam-se também as vozes contrárias que afirmam que a matéria, sendo inerte, não poderia ser responsável por ditar comportamentos. Em minha opinião essa é uma analogia imperfeita; seria o mesmo que dizer que pelo fato de a folha de papel e a grafite serem matéria elas não teriam o poder de transmitir as emoções de uma poesia ou ainda a de transmitir as ordens claras dos memorandos. O universo tem os seus métodos para armazenar e transmitir informações, métodos esses que não são do mundo da matéria, são do mundo do espírito (princípio inteligente do universo – não individualizado); não seria de forma alguma absurda a hipótese de esses métodos se utilizarem da matéria bruta como meio de gravação e reprodução das instruções que regem os seres vivos ou ainda, através de uma matéria mais tênue, até mesmo das instruções que regem as individualidades espirituais. No artigo “As almas e os Espíritos” há uma melhor abordagem sobre essa questão.

Outra característica observável dos instintos é o fato de serem bem mais visíveis nos animais do que nos homens. De fato, quanto menos complexos são os animais mais previsíveis são os seus comportamentos, com machos e fêmeas seguindo rituais instintivos exatos visando a sobrevivência e reprodução, mesmo estes os enviando para uma morte prematura, como acontece com os machos de algumas espécies durante o acasalamento. Foi só a partir do desenvolvimento da inteligência que os instintos passaram, ainda que de forma bem tênue, a dar algum espaço ao raciocínio, mas nada que arranhasse o seu predomínio na condução de tudo que conhecemos por vida. Foi somente no homem, com a inteligência já bem desenvolvida, que os instintos passaram a sofrer mais seriamente o crivo da razão, da falível razão. Sobre esse assunto, temos no O Livro dos Espíritos:

75. É acertado dizer que as faculdades instintivas diminuem, à medida que crescem as intelectuais?

– Não. O instinto existe sempre, mas o homem o negligencia. O instinto pode também conduzir ao bem; ele nos guia quase sempre, e às vezes mais seguramente que a razão; ele nunca se engana.

Existe um enorme fosso entre nós e o mais inteligente dos animais, e um dos diferenciais mais evidentes que temos em relação a eles é o de sermos os únicos a agir voluntariamente contra os nossos instintos naturais, seja por opção própria ou por indução de agentes sociais, como a cultura e as religiões. No homem também age por força das experiências acumuladas em suas diversas existências, das quais emergem os mais sutis gostos e preferências. Os humanos são seres complexos. Ficamos imersos nos instintos naturais, inclusive os sexuais, provenientes do gênero no qual encarnamos, ficamos imersos nos instintos espirituais (ou morais) e ficamos imersos em nossos pensamentos, através dos quais julgamos e analisamos os nossos atos continuamente. É complicado ser humano.

Para finalizar o artigo deixo a vocês essas palavras de Kardec sobre os instintos, onde ele deixa transparecer mais uma vez o seu refinado bom-senso:

A Gênese (Cap. III)

17. - Todas essas maneiras de considerar o instinto são forçosamente hipotéticas e nenhuma apresenta caráter seguro de autenticidade, para ser tida como solução definitiva. A questão, sem dúvida, será resolvida um dia, quando se houverem reunido os elementos de observação que ainda faltam. Até lá, temos que limitar-nos a submeter as diversas opiniões ao cadinho da razão e da lógica e esperar que a luz se faça. A solução que mais se aproxima da verdade será decerto a que melhor condiga com os atributos de Deus, isto é, com a bondade suprema e a suprema justiça.