sábado, 22 de janeiro de 2011

As almas e os Espíritos

O meu último artigo, que fala sobre os Espíritos e as leis físicas, gerou alguns comentários em relação à forma que utilizei as palavras “Espírito” e “alma”. Alguns deles separavam o Espírito do perispírito e diziam, com possível razão, que este não poderia sofrer a influência das leis físicas, deixando em aberto a possibilidade de apenas o perispírito sofrer essa influência; outros comentários alegavam que a palavra alma só poderia ser utilizada em relação aos Espíritos encarnados, como descrito por Kardec na questão 134 do O Livro dos Espíritos, e não da forma como usei. Fato é que no artigo mencionado usei as palavras “alma” e “Espírito” explicando a forma pela qual as entendia; fato é, também, que esses comentários me evidenciaram a necessidade de um aprofundamento neste assunto e me levaram à construção deste novo artigo.

Em primeiro lugar, para evitar novos mal entendidos, faz-se necessário a delimitação exata do que eu entendo por alma e Espírito, e para me auxiliar trarei um trecho do livro O Que é o Espiritismo que corresponde exatamente à minha opinião:

“14 - A união da alma, do perispírito e do corpo material constitui o homem; a alma e o perispírito separados do corpo constituem o ser chamado Espírito.

Nota - A alma é, assim, um ser simples; o Espírito um ser duplo e o homem um ser triplo. Seria, pois, mais exato reservar a palavra alma para designar o princípio inteligente, e a palavra Espírito para o ser semimaterial formado desse princípio e do corpo fluídico. Mas, como não se pode conceber o princípio inteligente isolado de toda matéria, nem o perispírito sem estar animado pelo princípio inteligente, as palavras alma e Espírito são, usualmente, empregadas indiferentemente uma pela outra; é a aparência que consiste pelo todo, da mesma forma que se diz de uma vila que ela é povoada por tantas em tomar a parte almas, um povoado de tantas casas; mas, filosoficamente, é essencial diferenciá-las.”

É exatamente assim que vejo a palavra “alma”, como um núcleo pensante, o princípio inteligente de um ser chamado Espírito, um ser duplo formado por esse núcleo pensante e revestido por um perispírito. Quando Kardec se refere à alma como o Espírito encarnado ele também se refere a esse núcleo pensante, só que desta vez revestido pela união do perispírito com o corpo físico. A palavra “Espírito” é usada na codificação espírita ora para designar o núcleo pensante (alma), ora para designar o ser duplo formado pela alma e o perispírito, e ora para designar o Princípio Inteligente do Universo (PIU), daí a origem de tantas confusões. Sem entrar na polêmica das palavras, me limito a informar o entendimento que elas devem assumir em meus artigos.

Mas, afinal de contas, o que seria a alma? O que seria esse princípio inteligente que anima o Espírito? De que ela seria feita? Qual seria a sua origem? Quais propriedades possuiriam? Bem... sem a mínima pretensão de encontrar a resolução completa para esses mistérios, me proponho a simplesmente buscar alguns rastros e pistas que, como uma bússola, possam nos mostrar ao menos a direção em que elas poderiam se encontrar. A bem da verdade, os próprios Espíritos da codificação ainda estudavam a natureza da alma na época em que Kardec construía a codificação. Lamennais nos confidencia a existência desse estudo em sua dissertação sobre o perispírito, no Livro dos Médiuns, onde diz: “...Supondes que,como vós, também eu não perquiro? Vós pesquisais o perispírito; nós outros, agora, pesquisamos a alma. Esperai, pois." Neste mesmo trecho do Livro dos Médiuns (Cap. IV, 51) este nobre Espírito nos alerta para primeiro tentarmos compreender estas questões moralmente e para não tentarmos ir mais longe que isso, visto que seriam pontos ainda inexplicáveis. Kardec, logo a seguir, também nos alerta que “pretender esquadrinhar, com o auxílio do Espiritismo, o que escapa à alçada da humanidade, é desviá-lo do seu verdadeiro objetivo”. Foram palavras sábias, tanto as de Lamennais quanto às de Kardec, e que servem de alerta aos espíritas mais afoitos, mas que não devem represar a força da filosofia em sua busca pelos porquês do mundo. O Espiritismo não pode se perder neste labirinto sem saída que, obviamente, não faz parte dos seus nobres propósitos, mas a filosofia pode, pois sua função primordial é formular hipóteses para tentar enxergar o que ainda não pode ser vislumbrado pelo senso comum ou pela ciência. Este blog pensa sobre Espiritismo, como diz o seu próprio nome, mas ele é, acima de tudo, um blog livre-pensador e filosófico, e por este motivo não se furtará em se embrenhar neste tema tão espinhoso.

É importante que se diga que nós, encarnados, provavelmente jamais saberemos como e por que os Espíritos foram criados, e a lógica nos diz que nem mesmo eles, os Espíritos, o saberão um dia. E por que digo isso? Simplesmente porque para se conseguir enxergar um processo como um todo, com todas as variáveis envolvidas nele, é necessária uma visão com amplitude geral que não é possível de se obter estando dentro dele; como os Espíritos são produtos de um processo, por esta premissa eles jamais conseguirão enxergá-lo como um todo. Mas se nem eles e nem nós conseguiremos enxergar um dia a totalidade desse processo que, como diz a doutrina, pertence aos desígnios de Deus, podemos ao menos verificar algumas características comuns que podem nos fornecer algumas pistas sobre o funcionamento da alma. Os médicos não estão nem perto de entender os porquês e a totalidade dos processos que geram a vida material, mas isso não os impedem de verificar boa parte do funcionamento do corpo humano.

Fazendo uma busca nos livros da codificação encontramos algumas informações muito interessantes, que serão listadas abaixo, com as respectivas referências.

O Livro dos Espíritos:

- Diz que os Espíritos são individualizações do princípio inteligente, como os corpos são individualizações do princípio material (questão 79)

- Diz que os Espíritos são feitos de matéria quintessenciada, que de tão eterizada não pode ser percebida pelos sentidos dos encarnados (questão 82)

- Diz que, em relação à forma, os Espíritos parecem como uma flama, ou um clarão, ou uma centelha etérea, que variam do escuro ao brilho do rubi, de acordo com a sua menor ou maior pureza. (questão 88 e 88 a)

- Diz que os Espíritos se irradiam e que essa força de irradiação depende do grau de pureza de cada um. (questão 92 e 92a)

- Diz que os Espíritos são envolvidos por uma substância que se para nós, encarnados, parece vaporosa, para eles parece ainda bastante grosseira; ela seria suficientemente vaporosa, entretanto, para permitir que os Espíritos possam elevar-se na atmosfera e transportar-se para onde quiser. (questão 93)

Em todas essas questões a palavra “Espírito” se refere ao ser simples, a alma citada no trecho acima do “O Que é o Espiritismo”; podemos confirmar isso pelo seguinte trecho do ”O Livro dos Médiuns” em que Kardec diz:

55. Hão dito que o Espírito é uma chama, uma centelha. Isto se deve entender com relação ao Espírito propriamente dito, como princípio intelectual e moral, a que se não poderia atribuir forma determinada. Mas, qualquer que seja o grau em que se encontre, o Espírito está sempre revestido de um envoltório, ou perispírito, cuja natureza se eteriza, à medida que ele se depura e eleva na hierarquia espiritual. De sorte que, para nós, a idéia de forma é inseparável da de Espírito e não concebemos uma sem a outra. O perispírito faz, portanto, parte integrante do Espírito, como o corpo o faz do homem. Porém, o perispírito, só por só, não é o Espírito, do mesmo modo que só o corpo não constitui o homem, porquanto o perispírito não pensa. Ele é para o Espírito o que o corpo é para o homem: o agente ou instrumento de sua ação.

Como vemos, segundo o Espiritismo as almas seriam individualizações do princípio inteligente do universo, mas como teria se dado esse processo de individualização? Teria se dado de forma instantânea, com as almas humanas sendo criadas completas e perfeitas para só posteriormente serem inseridas em corpos humanos? Ou teriam as almas humanas sido fruto de um longo processo evolutivo onde foram adquirindo o seu aprendizado paulatinamente?

Embora sedutora para os homens, pelo sentimento de perfeição intrínseca que ela nos dá, a teoria de as almas humanas terem sido criadas por Deus já perfeitas e completas para só depois entrarem em um ciclo de reencarnações com o objetivo de se depurarem, como se fossem diamantes brutos sendo polidos para mostrarem o seu verdadeiro brilho, essa versão não é a mais apropriada para demonstrar o que nos ensina o Espiritismo. Apesar de nele nem os Espíritos e nem Kardec terem se aventurado a tentar desvendar o misterioso processo de criação das almas humanas, incluindo-o no rol dos mistérios que pertencem a Deus, podemos encontrar em suas linhas indícios claros que nos dizem que as almas humanas teriam sido frutos de uma longa construção evolutiva. Exemplos desses indícios nós encontramos, por exemplo, nas seguintes questões do O Livro dos Espíritos:

Trecho da questão 540:

...E assim que tudo serve, tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, pois ele mesmo começou pelo átomo.

607-a. Parece, assim, que a alma teria sido o princípio inteligente dos seres inferiores da criação?

– Não dissemos que tudo se encadeia na Natureza e tende à unidade?

É nesses seres, que estais longe de conhecer inteiramente, que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco, e ensaia para a vida, como dissemos. E, de certa maneira, um trabalho preparatório, como o da germinação, em seguida ao qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna Espírito.

Essa elaboração, individualização, ensaio e transformação tem sido objeto para a criação de muitos sistemas por parte dos espíritas, que entendem essas palavras cada um ao seu modo; e certamente esse assunto também se tornará objeto para um futuro artigo neste blog, onde dedicaremos um olhar mais aguçado em direção aos princípios inteligentes e aos caminhos que eles possam ter percorrido até se transformarem em almas humanas. Neste artigo analisaremos essa questão de forma econômica.

É inegável que as almas humanas possuem características próprias que as distinguem das demais formas de vida; que possuem padrões de comportamento específicos e capacidades que lhes são comuns. Fazendo uma analogia com a evolução da vida material poderíamos dizer que somos fruto de uma ramificação evolutiva onde o pensamento aguçado e a consciência se firmaram como os seus principais diferenciais. Também é inegável que para que uma individualidade possa se manter e evoluir ela deverá possuir mecanismos que consigam armazenar os seus padrões de comportamentos e experiências (memória). Esses tipos de armazenamentos seriam inerentes a qualquer forma de vida, pois sem eles não seriam possíveis sequer as individualizações, visto que elas se tornariam tão volúveis e instáveis em sua fase embrionária que não conseguiriam criar um algo que conseguisse se tornar auto-sustentável e duradouro. Digamos que esta seria a primeira grande exigência da divina seleção natural.

Temos aqui a primeira grande característica das almas: o armazenamento de informações comportamentais e de memória. Mas as informações armazenadas, por si só, não fazem uma alma, isto porque as informações são basicamente estáticas, enquanto que as almas são dinâmicas; utilizam as informações para agirem, mas sem se confundirem com elas. Então, pelo que podemos ver, além das informações armazenadas na alma existe um núcleo que às gerencia organizando, reorganizando, escolhendo, assimilando novas informações e agindo. Opa! Então seria esse núcleo a verdadeira alma? Calma... as coisas não são tão simples assim. Esse núcleo gerenciador, a meu ver, seria algo bem menos complexo do que uma alma, pois ainda não possuiria as diversas camadas de informações sobrepostas que constituem as almas humanas ou qualquer outro eventual tipo de alma, em compensação ele teria a capacidade única de conseguir captar uma energia vinda diretamente do que se convencionou chamar de princípio vital. Bem... Kardec nunca usou em suas obras o termo “energia” com o sentido que o entendemos hoje; em sua época usava-se bastante o termo “fluido” para denominar o que hoje visualizamos como “energia” e foi com esse termo que os Espíritos explicaram o princípio vital, na questão 65 do O Livro dos Espíritos, dizendo que este seria um “fluido magnético ou fluido elétrico animalizado” e que seria também um intermediário, “um liame entre o espírito e a matéria” (a palavra “espírito”, nesse caso, se refere ao Princípio Inteligente do Universo (PIU), um dos elementos gerais do universo que junto com a matéria e Deus formariam a verdadeira trindade universal); num esforço de imaginação poderíamos dizer que ele seria uma espécie de “energia inteligente” que tiraria da matéria a sua porção energética e do espírito a sua porção inteligente.

Se a simples observação nos revela que as informações por si só são estáticas e inertes, ela nos revela também que energia difusa e descontrolada não consegue gerar os efeitos inteligentes e reproduzíveis necessários à existência da vida. Ambas, informação e energia, se completaram e se completam no árduo trabalho de elaborar e desenvolver o que conhecemos por vida; sem elas não estaríamos aqui buscando as nossas origens através da filosofia, com o auxílio do Espiritismo.

A impressão que temos, neste planeta carregado das mais variadas e resistentes espécies de vida, é que o universo constantemente conspira para criar a vida e talvez seja essa a mais pura verdade. Os Espíritos nos disseram que todos os orbes são habitados e é possível que sejam mesmo, talvez não por complexas formas de vida, mas sim por vidas simples que guardam poucas informações e se reproduzem. Certamente essa obstinação pela vida possui um intento, que talvez seja até o de fazer o universo (composto por espírito (PIU) e matéria, regidos por Deus) se sentir, se emocionar e, através de mentes mais desenvolvidas como as dos humanos, iniciar o seu autoconhecimento. É impossível solucionar esse mistério sem imputarmos todo esse mecanismo universal à vontade divina, porém mesmo quando nos referimos à vontade, seja ela qual for, podemos analisá-la correlacionando-a com uma força direcionada que é composta de energia (força) e informação (direção).

Deixando as divagações de lado e voltando a questão das almas, que também é uma divagação, mas mais palpável, tudo indica que elas foram se elaborando a partir de pontos inteligentes ou “centelhas anímicas” que foram pouco a pouco incorporando instruções à sua bagagem e se consolidando como individualidades. Em sua fase inicial essas centelhas sequer poderiam ser chamadas de almas; pois seriam apenas o que os espíritas chamam de princípio inteligente (PI), aquele que se elabora, individualiza pouco a pouco, ensaia para a vida para, após uma transformação, se tornar Espírito, conforme dito na questão 607-a do O Livro dos Espíritos. Por elaboração podemos entender, nesse caso, como o acúmulo de informações, sejam de instruções comportamentais ou de simples dados de memória.

Bem, aqui chegamos a alguns pontos importantes e polêmicos que não poderiam deixar de ser tratados neste artigo: o primeiro ponto diz respeito ao armazenamento de informações necessitar ou não de um meio material, mesmo que matéria quintessenciada, para se estabilizar e se manter; o segundo diz respeito às propriedades de transporte e replicação que essas informações poderiam possuir; e o terceiro, que tem alguma correlação com o segundo, diz respeito à necessidade ou não de ser usado o expediente da “reencarnação” durante o processo de elaboração dos PIs. Sobre o primeiro ponto trago a questão 82 do O Livro dos Espíritos por completo:

82. É certo dizer que os Espíritos são imateriais?

– Como podemos definir uma coisa, quando não dispomos de termos de comparação e usamos uma linguagem insuficiente? Um cego de nascença pode definir a luz? Imaterial não é o termo apropriado; incorpóreo, seria mais exato; pois deves compreender que, sendo uma criação, o Espírito deve ser alguma coisa. É uma matéria quintessenciada, para a qual não dispondes de analogia, e tão eterizada, que não pode ser percebida pelos vossos sentidos.

(Comentário de Kardec) Dizemos que os Espíritos são imateriais porque a sua essência difere de tudo o que conhecemos pelo nome de matéria. Um povo de cegos não teria palavras para exprimir a luz e os seus efeitos. O cego de nascença julga ter todas as percepções pelo ouvido, o olfato, o paladar e o tato; não compreende as idéias que lhe seriam dadas pelo sentido que lhe falta. Da mesma maneira, no tocante à essência dos seres super-humanos, somos como verdadeiros cegos. Não podemos defini-los, a não ser por meio de comparações sempre imperfeitas, ou por um esforço da imaginação.

Não é fácil detectar, na codificação, quando a palavra Espírito se refere ao ser simples, formado por um núcleo pensante, ou quando se refere ao ser duplo, composto por um núcleo pensante revestido por perispírito. A tradução de Herculano Pires ainda traz notas esclarecendo a sua interpretação sobre essa questão em alguns pontos, o que já não acontece na tradução de Guillon Ribeiro que, aliás, ainda possui outros problemas como, por exemplo, o da grafia da palavra “espírito” com “E” maiúsculo quando ela se refere ao Princípio Inteligente do Universo (PIU), gerando confusões entre esse elemento geral do universo (não individualizado) e as individualidades extracorpóreas (essas sim devem ser escritas com “E” maiúsculo, sejam elas com ou sem perispíritos). No caso da questão 82 Herculano adicionou uma nota dizendo que ela se referia ao ser duplo, justificando isso pela leitura da questão 79 que, segundo ele, deixaria a entender que o Espírito, sem o perispírito, nada teria de material.

79. Uma vez que há dois elementos gerais do Universo: o inteligente e o material, poderíamos dizer que os Espíritos são formado do elemento inteligente, como os corpos inertes são formados do material?

– É evidente. Os Espíritos são individualizações do princípio inteligente, como os corpos são individualizações do princípio material; a época e a maneira dessa formação é que desconhecemos.

Não vou questionar a interpretação de Herculano, que pode até ser válida, apesar de a questão 82 estar próximo a outras onde o próprio tradutor reconhece que essa palavra se refere ao ser simples; vou apenas tomar emprestado, como ilustração, um trecho da resposta dos Espíritos que creio ser bastante significativo; é o que diz: “Imaterial não é o termo apropriado; incorpóreo, seria mais exato; pois deves compreender que, sendo uma criação, o Espírito deve ser alguma coisa.”

Na questão 88 e 88-a, que Herculano anota como se referindo aos Espíritos puros, desprovidos de perispírito, temos:

88. Os Espíritos têm uma forma determinada, limitada e constante?

– Aos vossos olhos, não; aos nossos, sim. Eles são, se o quiserdes, uma flama, um clarão ou uma centelha etérea.

88-a. Esta f lama ou centelha tem alguma cor?

– Para vós, ela varia do escuro ao brilho do rubi, de acordo com a menor ou maior pureza do Espírito.

Ora... essa flama ou centelha é uma criação, é alguma coisa e, pelo que está exposto, uma coisa que possui propriedades rígidas que correlacionam a sua cor com a sua pureza. É claro que não podemos tomar ao pé-da-letra as comparações feitas com as nossas cores, até porque desconhecemos como funcionam os efeitos luminosos no mundo espiritual e qual seria a forma de captação destes pelos Espíritos, mas ainda assim não podemos desprezar o aspecto mais importante desta revelação: o de haverem correlações rígidas entre o estado do núcleo pensante, ou alma, e a sua aparência. Não posso falar mais do que isso sem entrar no terreno das grandes incertezas, mas sempre me reconforto por saber que esse terreno também já foi pisado pelo nosso nobre Kardec. O que eu visualizo, hoje, é que essa alteração de cores, que seria proporcional à pureza do Espírito, se dê, de alguma forma, em função da qualidade da matéria quintessenciada que o forma, e que guarda as informações fundamentais que fixam a sua individualidade, e pela ativação desta matéria através do “metabolismo” das almas durante o processo de absorção da energia do princípio vital. Kardec também desconhecia as exatas correlações entre a matéria e o Princípio Inteligente. Ele nos dá uma idéia disso na questão 28 do O Livro dos Espíritos, abaixo, onde é explicado o espírito, que é o Princípio Inteligente do Universo (PIU). Relembrando: os núcleos pensantes, ou almas, seriam individualizações desse elemento geral do universo.

28. Sendo o espírito, em si mesmo, alguma coisa, não seria mais exato, e menos sujeito a confusões, designar esses dois elementos gerais pelas expressões: matéria inerte e matéria inteligente?

– As palavras pouco nos importam. Cabe a vós formular a vossa linguagem, de maneira a vos entenderdes. Vossas disputas provêm, quase sempre, de não vos entenderdes sobre as palavras. Porque a vossa linguagem é incompleta para as coisas que não vos tocam os sentidos.

(comentário de Kardec) Um fato patente domina todas as hipóteses: vemos matéria sem inteligência e um princípio inteligente independente da matéria. A origem e a conexão dessas duas coisas nos são desconhecidas. Que elas tenham ou não uma fonte comum e os pontos de contato necessários; que a inteligência tenha existência própria, ou que seja uma propriedade, um efeito; que seja, mesmo, segundo a opinião de alguns, uma emanação da Divindade, – é o que ignoramos. Elas nos aparecem distintas, e é por isso que as consideramos formando dois princípios constituintes do Universo.

Podemos acrescentar ainda, a essa incerteza de Kardec, o fato de que Lammenais reconheceu, como está no início do artigo, que eles mesmos, os Espíritos, ainda não entendiam os segredos das almas; isso só para dar uma idéia de como esse assunto ainda está no campo das incertezas que só podem ser arranhadas com o auxílio da filosofia.

Sobre as possibilidades de transporte e replicação das informações que compõem a vida, temos um exemplo bem clássico nas facilmente observáveis transmissões de informações hereditárias, sejam elas efetuadas através dos códigos genéticos ou sejam por qualquer outra forma de transmissão que ainda não tenha sido descoberta. A ciência ainda não entende totalmente como esse processo funciona e se limita a tentar rastrear os efeitos dos genes do que de procurar as causas daquela mirabolante engenharia, o que é até compreensível, visto que ela se perderia num labirinto sem fim e desperdiçaria o tempo e a energia que hoje são gastos exclusivamente para criar métodos de cura e de melhoria de vida; este seria aquele mesmo labirinto sem fim que Kardec nos alertou para que o Espiritismo não entrasse, no intuito de tentar desvendar as origens das almas, para que ele não se desviasse de sua verdadeira função. O que fica, para nosso artigo, é expor o quanto é inegável o fato de que no processo de reprodução da vida milhões de informações são transferidas e replicadas. E se existe uma forma de a nossa matéria guardar informações, transferi-las e replicá-las, por que a matéria quintessenciada não poderia fazê-lo a nível espiritual?

Quanto à elaboração que foi necessária para gerar os Espíritos, na minha visão ela ocorreu de forma simultânea à evolução da vida material; com novos comando e informações sendo gerados e gravados em matéria bruta e em matéria quintessenciada, sendo repassados pelos processos naturais de transferência hereditária e sendo selecionados pela divina seleção natural; num processo longo que culminou no surgimento dos corpos humanos e das almas humanas. Foi em algum ponto desse processo elaborativo que os princípios inteligentes se tornaram Espíritos.

Como dizem, a natureza não dá saltos, e, olhando a cronologia da vida na Terra, podemos dizer que ela não dá mesmo. Dos pouco mais de três bilhões e meio de anos nos quais a vida se desenvolveu neste planeta, aproximadamente três bilhões deles foram dedicados a gerar seres unicelulares, só depois, e aos poucos, é que esses seres unicelulares passaram a se agrupar e a dividir funções entre os seus membros numa prática aparentemente vantajosa, visto que de lá para cá ela nunca deixou de evoluir. As convenções desses condomínios de seres unicelulares passaram a reger as suas vidas e a se transmitir adiante, via reprodução, e os prédios tornaram-se as individualidades a serem consideradas, não mais os apartamentos, apesar de estes ainda terem voz e influenciarem continuamente a individualidade central, indicando a ela as suas necessidades.

A codificação faz uma diferenciação entre vida orgânica e vida inteligente, e ela está bem descrita na questão 71 do O Livro dos Espíritos, que fala sobre a inteligência:

71. A inteligência é um atributo do princípio vital?

– Não; pois as plantas vivem e não pensam, não tendo mais do que vida orgânica. A inteligência e a matéria são independentes, pois um corpo pode viver sem inteligência, mas a inteligência só pode manifestar-se por meio dos órgãos materiais: somente a união com o espírito dá inteligência à matéria animalizada.

(comentário de Kardec) A inteligência é uma faculdade especial, própria de certas classes de seres orgânicos, aos quais dá, com o pensamento, a vontade de agir, a consciência de sua existência e de sua individualidade, assim como os meios de estabelecer relações com o mundo exterior e de prover as suas necessidades.

Podemos fazer a seguinte distinção: 1.º) os seres inanimados, formados somente de matéria, sem vitalidade nem inteligência: são os corpos brutos; 2.º) os seres animados não-pensantes, formados de matéria e dotados de vitalidade, mas desprovidos de inteligência; 3.º) os seres animados pensantes, formados de matéria, dotados de vitalidade, e tendo ainda um princípio inteligente que lhes dá a faculdade de pensar.

Tomemos a palavra “espírito” aqui como o Princípio Inteligente do Universo, fonte da inteligência, como reforça a questão 72:

72. Qual é a fonte da inteligência?

– Já o dissemos; a inteligência universal.

Alguns tomam o início do desenvolvimento das almas como o ponto no qual a inteligência se tornou mais pronunciada, ou seja, quando ela passou a gerar os primeiros pensamentos concatenados, mas se quisermos realmente devassar as origens das almas teremos que retroceder aos processos que formaram os corpos dos seres vivos, corpos esses que possibilitaram a manifestação da inteligência; primeiro a de uma inteligência instintiva e depois a de uma inteligência moral, surgida a partir da elaboração da capacidade de pensar.

Na questão 605 do O Livro dos Espíritos temos:

605. Se considerarmos todos os pontos de contato existentes entre o homem e os animais, não poderíamos pensar que o homem possui duas almas: a alma animal e a alma espírita; e que, se ele não tivesse esta última, poderia viver, mas como os animais?

Dizendo de outra maneira: o animal é um ser semelhante ao homem, menos a alma espírita? Disso resultaria que os bons e os maus instintos do homem seriam o efeito da predominância de uma ou de outra dessas duas almas?

– Não, o homem não tem duas almas, mas o corpo tem os seus instintos, que resultam da sensação dos órgãos. Não há no homem senão uma dupla natureza: a natureza animal e a espiritual. Pelo seu corpo, ele participa da natureza dos animais e dos seus instintos; pela sua alma, participa da natureza dos Espíritos.

Esta questão nos indica que os instintos teriam origem nos corpos e que eles influenciariam os Espíritos encarnados. Em nada me surpreende essa informação visto que tudo indica, na minha opinião, baseada em diversas observações, que eles, os instintos, seriam informações comportamentais transferidas pelos mecanismos hereditários, ou seja, pela carne. Um bom exemplo disto podemos encontrar nas seleções reprodutivas efetuadas pelos homens e que geraram as diversas raças de cachorros. Nelas não foram apenas as aparências que se diferenciaram ao extremo, os seus comportamentos também se diferenciaram, e muito.

Antes de surgir a “alma espírita” houve um longo processo para o desenvolvimento da “alma animal”, uma alma simples voltada para a satisfação das necessidades da vida material e que, por ter essa função tão específica, entra em letargia ao perder, por evento da morte, a sua mola propulsora que é o corpo físico. O homem, por sua capacidade de pensar muito além das necessidades do corpo material, mantém a sua “alma espírita” ativa após a sua libertação do corpo físico. Essa capacidade de pensar para além das necessidades do corpo faz toda a diferença entre os homens e os animais no mundo após a morte. Seria ela a responsável por transformar princípios inteligentes em Espíritos, como diz a questão 607-a, isso tanto aqui na Terra como em qualquer outro orbe gerador de Espíritos. Quando dizemos que Deus não para de criar Espíritos é porque os mecanismos que ele criou jamais deixaram de dar os seus frutos. Se supormos, como querem alguns, que haja a necessidade da intervenção de inteligências individualizadas no processo de geração espiritual, cairemos em um circuito temporal ilógico, a não ser que admitamos a existência de entidades espirituais que não tenham passado pelo crivo da evolução.

Os diversos sistemas criados para tentar explicar as almas humanas não são comprováveis e todos eles não conseguem sair do campo das hipóteses mais ou menos plausíveis. É bem verdade que está escrito, no O Livro dos Espíritos (questão 607-b) que as primeiras encarnações dos Espíritos humanos não se dariam na Terra, mas é bem verdade também que a hipótese de elas poderem se dar neste planeta é admitida, na mesma questão, a título de exceção; uma exceção que talvez tenha virado regra diante da explosão populacional do último século e da total falta de evidências confiáveis sobre a chegada de Espíritos de outros lugares por aqui.

Espero ter dado uma boa contribuição aos que gostam de filosofar sobre esse assunto. Não creio que especular sobre as almas fira as bases do Espiritismo. Kardec nos dá um exemplo de tolerância filosófica quando nos explica o Sistema da Alma Material, no Livro dos Médiuns. Deixo essa instrutiva leitura para finalizar o artigo, porém alertando, para evitar mal entendidos, que as minhas especulações não se confundem com este sistema.

50. Sistema da alma material. - Consiste apenas numa opinião particular sobre a natureza íntima da alma. Segundo esta opinião, a alma e o perispírito não seriam distintos uma do outro, ou, melhor, o perispírito seria a própria alma, a se depurar gradualmente por meio de transmigrações diversas, como o álcool se depura por meio de diversas destilações, ao passo que a Doutrina Espírita considera o perispírito simplesmente como o envoltório fluídico da alma, ou do Espírito. Sendo matéria o perispírito, se bem que muito etérea, a alma seria de uma natureza material mais ou menos essencial, de acordo com o grau da sua purificação.

Este sistema não infirma qualquer dos princípios fundamentais da Doutrina Espírita, pois que nada altera com relação ao destino da alma; as condições de sua felicidade futura são as mesmas; formando a alma e o perispírito um todo, sob a denominação de Espírito, como o gérmen e o perisperma o formam sob a de fruto, toda a questão se reduz a considerar homogêneo o todo, em vez de considerá-lo formado de duas partes distintas.

Como se vê, isto não leva a conseqüência alguma e de tal opinião não houvéramos falado, se não soubéssemos de pessoas inclinadas a ver uma nova escola no que não é, em definitivo, mais do que simples interpretação de palavras. Semelhante opinião, restrita, aliás, mesmo que se achasse mais generalizada, não constituiria uma cisão entre os espíritas, do mesmo modo que as duas teorias da emissão e das ondulações da luz não significam uma cisão entre os físicos...



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