segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Os Espíritos e as Leis Físicas

Muito se fala da imponderabilidade dos Espíritos em relação à matéria e às leis físicas que a regem, e geralmente citam como exemplo disso o fato de os Espíritos voarem (ou volitarem, como preferem muitos espíritas) e o fato de conseguirem transpassar com facilidade a matéria sólida. Nesse artigo pretendo abordar esse tema de uma forma mais ampla, buscando pistas e exemplos que possam clarear essa questão.

Em primeiro lugar é necessário tentar entender as forças físicas que atuam sobre nós, encarnados, para depois analisarmos se essas mesmas forças poderiam também atuar sobre os Espíritos, tomando aqui a palavra “Espírito” como um ser composto por alma (ser pensante) envolta em um perispírito (composto por fluidos espirituais, ou matéria quintessenciada, conforme diz Kardec no livro A Gênese).

A título de ilustração vamos imaginar uma cena simples: uma pessoa sentada no banco de trás de um carro que se movimenta a 80 quilômetros por hora. Quantas variáveis físicas poderíamos observar atuando sobre esse cenário tão comum? Pode parecer que não, mas são diversas; vou enumerar algumas:

- A pressão atmosférica, que nada mais é do que o peso da quilométrica coluna de ar que se coloca sobre nossas cabeças e que faz com que as nossas bochechas se contraiam quando sugamos um refresco no canudo (ela também é responsável pelo fato de o refresco subir pelo canudo).

- A força da gravidade, que nos atrai para o centro da Terra e que gera o nosso peso, que é proporcional a nossa massa.

- A força centrífuga proporcionada pela rotação da Terra e que tem o efeito de reduzir o peso dos objetos e pessoas. Um objeto tem o seu peso reduzido em 0,34% se estiver na linha do equador, onde a força centrífuga é maior; essa redução de peso diminui conforme o aumento da latitude, até ficar nula nos pólos.

- A força de reação que o banco exerce sobre o corpo, que é igual ao peso da pessoa, mas no sentido contrário ao da gravidade.

- A força inercial, que é a que nos permite acompanhar a velocidade de um carro, estando dentro dele, em uma situação de relativa estabilidade. Também é ela a responsável pelo fato de sermos jogados para frente com violência durante os acidentes em que o carro pára rapidamente.

- A força de atrito, tão importante e tão presente em nossas vidas, e ao mesmo tempo tão discreta. Sem ela sequer conseguiríamos caminhar, pois o chão se tornaria tão escorregadio que não conseguiríamos nos impulsionar para frente, e nem permanecer sentados confortavelmente em um banco de carro sem sermos jogados de um lado para o outro a qualquer movimento mínimo do veículo.

Talvez você nunca tenha pensado na quantidade de forças físicas que atuam permanentemente sobre nós, mas fato é que as essas forças existem e que são as responsáveis pela aparente estabilidade na qual nos encontramos. Na verdade, no mundo material não existem estabilidades absolutas, o que há são somente estabilidades relativas, como a existente entre duas pessoas que conversam alegremente dentro de um carro em alta velocidade. O universo é um baile em constante movimento; a Terra gira sobre o seu eixo (na linha do equador a uma velocidade de 1667 quilômetros por hora) e orbita ao redor do Sol a uma velocidade de 30 quilômetros por segundo; o Sol se desloca pela galáxia a uma velocidade aproximada de 19,5 quilômetros por segundo e a própria galáxia se movimenta pelo universo a velocidades incríveis. Bem... diante de toda essa explanação a pergunta que tem a ver com este artigo que deve ser respondida é: como os Espíritos adquirem a estabilidade relativa na qual se encontram e que pode ser comprovada pelos inúmeros relatos mediúnicos, especialmente os de vidência? A resposta mais óbvia e sensata para mim seria: pelas próprias leis físicas que nos regem. Eu sei... eles volitam e conseguem fazer coisas que não conseguimos, mas acredito que excluí-los do nosso sistema de forças físicas geraria mais perguntas inexplicáveis do que mantê-los, afinal de contas, alguém já ouviu falar de Espíritos ficando para trás durante a vertiginosa corrida do planeta ao redor do Sol? O fato de eles volitarem não os eximem da força atração da gravidade, assim como um balão de gás que alça vôo também sofre esta atração. A propriedade de que os Espíritos se servem para volitar ainda não está ao nosso alcance, mas que ela existe a observação não nos deixa negar. A seu favor, para a volitação, os Espíritos possuem o seu peso, que é mínimo, mas ainda restaria saber sobre o que eles se apoiariam para se manter no ar, visto que uma vez suscetível à gravidade da Terra, somente uma força contrária conseguiria impedi-los de seguir a inexorável rota em direção ao centro do planeta. Qualquer que seja a propriedade que eles se utilizam para volitar, ela terá que, inevitavelmente, reagir com o ambiente externo para produzir o esperado controle e estabilidade.

A força da gravidade é uma das forças mais misteriosas que existem. Newton detectou as suas conseqüências matemáticas de forma quase perfeita; segundo a lenda, Galileu provou que ela é sempre a mesma (num mesmo ponto) para todos os corpos e fez isso jogando duas balas de canhão de massas diferentes e, conseqüentemente, pesos também diferentes, do alto da Torre de Pizza, e verificando que elas chegavam ao chão ao mesmo tempo; lenda ou não esta experiência poderia ser repetida hoje com este mesmo resultado. Esta informação é importante, no nosso caso, para ilustrar que a massa mínima dos Espíritos, que é mínima, mas não é nula, já seria o suficiente para fazer com que a gravidade atuasse sobre eles da mesma forma que atua sobre o objeto mais pesado que pudermos imaginar. Einstein levantou uma hipótese sobre a causa da força da gravidade na sua Teoria da Relatividade; as suas conclusões relacionaram esta força a uma depressão no que ele chamou de espaço-tempo. Sem querer me alongar nas teorias científicas deste gênio, entendo que os Espíritos deste orbe que entram em contato conosco também estariam se movendo no mesmo espaço-tempo que nós, visto que médiuns videntes os vêem neste espaço e se comunicam em tempo real com eles, ou seja, mesmo pelas teorias de Einstein os Espíritos poderiam ser facilmente incluídos em um sistema de forças igual ao nosso.

Sobre a imponderabilidade em relação à matéria bruta, que é aventada pelo fato de os Espíritos poderem transpassá-la sem maiores problemas, há algumas relações que devem ser observadas, como, por exemplo, o fato de Espíritos já terem sido vistos sentados em cadeiras materiais ou mesmo caminhando por cômodos também materiais, fatos estes que sugerem que eles conseguiriam de alguma forma se apoiar sobre a matéria bruta e ainda utilizá-la como pontos de atrito com o fim de auxiliar o seu impulso para frente durante a caminhada, pois, afinal de contas, não faz sentido que finjam o movimento da caminhada apenas para nos iludir sem com isso obter nenhuma utilidade prática. Talvez esteja nesta pequena resistência da matéria a explicação plausível para o equilíbrio que permite que Espíritos se apóiem confortavelmente sobre do solo ou mesmo sobre o chão de apartamentos de andares altos. É claro que essa pequena resistência da matéria não os impediria de transpassá-la, se quisessem fazê-lo e forçassem essa passagem, e isso seria até fácil de entender, pois a nossa matéria, com núcleos, elétrons e moléculas tão distantes entre si, proporcionalmente falando, deve parecer a eles como uma peneira de malha grossa composta por uma fração mínima de matéria, recheada por inúmeras forças atômicas; forças essas que, na minha opinião seriam as responsáveis pela resistência oferecida.

Segundo o Espiritismo os Espíritos são revestidos por perispíritos que formados pela matéria quintessenciada própria de cada orbe. No livro “A Gênese” Kardec chamou essa matéria quintessenciada que envolve os globos de fluidos espirituais, deixando claro que eles seriam suscetíveis à ação da gravidade. Colocarei abaixo alguns trechos importantes desse livro e comentarei ao fim:

A Gênese / CAP.XIV (Os Fluidos)

“5. - A pureza absoluta, da qual nada nos pode dar idéia, é o ponto de partida do fluido universal; o ponto oposto é o em que ele se transforma em matéria tangível. Entre esses dois extremos, dão-se inúmeras transformações, mais ou menos aproximadas de um e de outro. Os fluidos mais próximos da materialidade, os menos puros, conseguintemente, compõem o que se pode chamar a atmosfera espiritual da Terra. É desse meio, onde igualmente vários são os graus de pureza, que os Espíritos encarnados e desencarnados, deste planeta, haurem os elementos necessários à economia de suas existências. Por muito sutis e impalpáveis que nos sejam esses fluidos, não deixam por isso de ser de natureza grosseira, em comparação com os fluidos etéreos das regiões superiores.”

“O mesmo se dá na superfície de todos os mundos, salvo as diferenças de constituição e as condições de vitalidade próprias de cada um. Quanto menos material é a vida neles, tanto menos afinidades têm os fluidos espirituais com a matéria propriamente dita.”

“Não é rigorosamente exata a qualificação de fluidos espirituais, pois que, em definitiva, eles são sempre matéria mais ou menos quintessenciada. De realmente espiritual, só a alma ou princípio inteligente. Dá-se-lhes essa denominação por comparação apenas e, sobretudo, pela afinidade que eles guardam com os Espíritos. Pode dizer-se que são a matéria do mundo espiritual, razão por que são chamados fluidos espirituais.”

“9. - A natureza do envoltório fluídico está sempre em relação com o grau de adiantamento moral do Espírito. Os Espíritos inferiores não podem mudar de envoltório a seu bel-prazer, pelo que não podem passar, a vontade, de um mundo para outro. Alguns há, portanto, cujo envoltório fluídico, se bem que etéreo e imponderável com relação à matéria tangível, ainda é por demais pesado, se assim nos podemos exprimir, com relação ao mundo espiritual, para não permitir que eles saiam do meio que lhes é próprio. Nessa categoria se devem incluir aqueles cujo perispírito é tão grosseiro, que eles o confundem com o corpo carnal, razão por que continuam a crer-se vivos. Esses Espíritos, cujo número é avultado, permanecem na superfície da Terra, como os encarnados, julgando-se entregues às suas ocupações terrenas. Outros um pouco mais desmaterializados não o são, contudo, suficientemente, para se elevarem acima das regiões terrestres. (1)”

“Os Espíritos superiores, ao contrário, podem vir aos mundos inferiores, e, até, encarnar neles. Tiram, dos elementos constitutivos do mundo onde entram, os materiais para a formação do envoltório fluídico ou carnal apropriado ao meio em que se encontrem. Fazem como o nobre que despe temporariamente suas vestes, para envergar os trajes plebeus, sem deixar por isso de ser nobre.”

“É assim que os Espíritos da categoria mais elevada podem manifestar-se aos habitantes da Terra ou encarnar em missão entre estes. Tais Espíritos trazem consigo, não o invólucro, mas a lembrança, por intuição, das regiões donde vieram e que, em pensamento, eles vêem. São videntes entre cegos.”

__________

“(1) Exemplos de Espíritos que ainda se julgam deste mundo: Revue Spirite, dezembro

de 1859, pág. 310; - novembro de 1864, pág. 339; - abril de 1865, pág. 177.”

“10. - A camada de fluidos espirituais que cerca a Terra se pode comparar às camadas inferiores da atmosfera, mais pesadas, mais compactas, menos puras, do que as camadas superiores. Não são homogêneos esses fluidos; são uma mistura de moléculas de diversas qualidades, entre as quais necessariamente se encontram. as moléculas elementares que lhes formam a base, porém mais ou menos alteradas. Os efeitos que esses fluidos produzem estarão na razão da soma das partes puras que eles encerram. Tal, por comparação, o álcool retificado, ou misturado, em diferentes proporções, com água ou outras substâncias: seu peso específico aumenta, por efeito dessa mistura, ao mesmo tempo que sua força e sua inflamabilidade diminuem, embora no todo continue a haver álcool puro.”

“Os Espíritos chamados a viver naquele meio tiram dele seus perispíritos; porém, conforme seja mais ou menos depurado o Espírito, seu perispírito se formará das partes mais puras ou das mais grosseiras do fluido peculiar ao mundo onde ele encarna. O Espírito produz aí, sempre por comparação e não por assimilação, o efeito de um reativo químico que atrai a si as moléculas que a sua natureza pode assimilar.”

“Resulta disso este fato capital: a constituição íntima do perispírito não é idêntica em todos os Espíritos encarnados ou desencarnados que povoam a Terra ou o espaço que a circunda. O mesmo já não se dá com o corpo carnal, que, como foi demonstrado, se forma dos mesmos elementos, qualquer que seja a superioridade ou a inferioridade do Espírito. Por isso, em todos, são os mesmos os efeitos que o corpo produz, semelhantes às necessidades, ao passo que diferem em tudo o que respeita ao perispírito.”

“Também resulta que: o envoltório perispirítico de um Espírito se modifica com o progresso moral que este realiza em cada encarnação, embora ele encarne no mesmo meio; que os Espíritos superiores, encarnando excepcionalmente, em missão, num mundo inferior, têm perispírito menos grosseiro do que o dos indígenas desse mundo.”

O fato de os fluidos espirituais se distribuírem de forma semelhante à atmosfera, com as partes mais pesadas abaixo e as mais leves acima, deixa patente o fato de que essa forma de distribuição deveu-se a ação da gravidade. Se os perispíritos são formados pelos fluidos espirituais, nada mais justo que eles também sofram essa ação.

Em minha opinião todas as evidências indicam que os Espíritos seriam regidos pelas leis físicas que nos regem, mas que, é claro, eles possuiriam características próprias que os permitiriam fazer coisas que não conseguimos. É bom que se diga que em nenhum ponto da codificação eu vi escrito o contrário e que quando escrevo este artigo não é para confrontá-la; o motivo que me levou a escrevê-lo foi porque nos muitos debates em que participei verifiquei que eram poucos os que compartilhavam comigo essa visão.



Acesse e salve em seu computador um arquivo PDF com o conteúdo completo de blog clicando aqui.