segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Seria o mundo material uma cópia do espiritual?

Ao assistir o trailer do filme “Nosso Lar” me deparei mais uma vez com uma frase que já se tornou clichê nos debates sobre Espiritismo na Internet: “A vida na Terra é que é uma cópia daqui, André.”, disse o Espírito Lísias. Nos debates virtuais, além de se referirem ao mundo material como uma cópia do mundo espiritual, ainda costumam exagerar dizendo que esta seria uma cópia grosseira.

Bem, seguindo os objetivos deste blog, tentarei analisar essa questão pela ótica da razão. Irei abordá-la em duas etapas; a primeira, com viés doutrinário, analisando o que está escrito na codificação, e a segunda abordando diretamente o que está escrito na literatura de André Luiz e que serviu de inspiração para o filme.

No “O Livro dos Espíritos” temos as seguintes questões:

85. Qual dos dois, o mundo espírita ou o mundo corpóreo, é o principal, na ordem das coisas?

“O mundo espírita, que preexiste e sobrevive a tudo.”

86. O mundo corporal poderia deixar de existir, ou nunca ter existido, sem que isso alterasse a essência do mundo espírita?

“Decerto. Eles são independentes; contudo, é incessante a correlação entre ambos, porquanto um sobre o outro incessantemente reagem.”

Nestas respostas há uma explícita desvalorização do mundo corporal, desvalorização esta a meu ver injusta e que colabora fortemente para a visão preconceituosa que muitos espíritas têm em relação a ele. Até compreendo que a primeira vista a coisa possa parecer desta forma aos Espíritos, isso pelo simples fato de o mundo espiritual se demonstrar a eles mais perene, como uma casa de onde apenas se ausentam para “visitar” o mundo material em suas encarnações. Mas será que em uma análise mais ampla e profunda essa visão se sustenta? Acredito que não, e digo isso me baseando nas próprias palavras da codificação. Tomando o termo “mundo espírita” como o mundo habitado pelos Espíritos, como podemos afirmar que o surgimento destes Espíritos que o habitam tenha se dado de uma forma completamente independente do mundo corporal? E isso a ponto de dizer que este “poderia deixar de existir , ou nunca ter existido, sem que isso alterasse a essência do mundo espírita”. Os Espíritos da codificação disseram desconhecer a sua própria origem, o que já bastaria para lançar suspeitas sobre a afirmação acima, além do mais, quando citam o mundo corporal como fundamental para o aperfeiçoamento dos Espíritos, entram em contradição com a tese da independência entre esses mundos. Vejam o que diz a questão 196 do O Livro dos Espíritos:

196. Não podendo os Espíritos aperfeiçoar-se, a não ser por meio das tribulações da existência corpórea, segue-se que a vida material seja uma espécie de crisol ou de depurador, por onde têm que passar todos os seres do mundo espírita para alcançarem a perfeição?

“Sim, é exatamente isso. Eles se melhoram nessa provas, evitando o mal e praticando o bem; porém, somente ao cabo de mais ou menos longo tempo, conforme os esforços que empreguem; somente após muitas encarnações ou depurações sucessivas, atingem a finalidade para que tendem.”

Futuramente abordarei a questão da origem e evolução dos Espíritos, em outro artigo, por ora voltemos ao assunto deste, agora abordando a literatura de André Luiz.

O livro Nosso Lar nos traz a imagem de um mundo muito parecido com a nossa realidade material, com árvores, animais, casas, edifícios, instituições, bosques, parques, meios de transportes, fábricas, e faz uso de uma linguagem rebuscada e cheia de adjetivos para descrevê-la. É compreensível que isso crie na imaginação dos leitores a sensação de que o mundo material seja um arremedo, uma cópia surrada destas descrições. Não é a toa que estão entre os espíritas mais chegados a essa literatura os que mais defendem essa tese.

Se analisarmos friamente o mundo material veremos que quase tudo nele possui causas explicáveis e interconectadas. Os seres vivos que nele habitam foram moldados aos poucos, sendo constantemente testados pelo crivo da seleção natural. Se os animais são o que são hoje foram por motivos práticos que fizeram com que os mais capazes de se reproduzir e de se manter levassem vantagem sobre os menos capazes. Se os vegetais são o que são hoje foi porque eles se adaptaram melhor aos locais onde germinaram: ao solo, à temperatura, à fauna; e fizeram isso desenvolvendo folhas e caules (ou troncos) para absorver de forma mais eficaz os recursos energéticos e alimentares dos locais onde vivem, desenvolvendo também flores coloridas para atrair insetos e frutos saborosos para atrair os animais, ambos visando espalhar os polens e as sementes. Em suma, animais e vegetais, se adaptaram às variáveis físicas e químicas do planeta, como a intensidade da força da gravidade, a intensidade de luz solar a composição da atmosfera e do solo, e criaram corpos compatíveis com essas variáveis, gerando os mais variados tamanhos e formas, desenvolvendo funcionalidades apropriadas para a captação e metabolização da energia necessária à vida e a reprodução. As características dos lírios e hortênsias do mundo material possuem as suas origens e razões de ser fincadas no mundo material, não vejo sentido em dizer que sejam apenas cópias dos lírios e hortênsias descritos em Nosso Lar. O inverso seria mais crível.

Uma outra abordagem que pode ser dada à frase dita por Lísias no trailer de Nosso Lar e repetida incansavelmente nos debates na Internet, é a de que a referida cópia faria menção aos relacionamentos sociais e às criações humanas. Pode até ser... mas ainda aqui temos que nos reportar às causas que levam os humanos a se relacionar e a criar no mundo material, e checar se existem indícios de que essas atividades possam ter sua origem em outro mundo e terem sido apenas reproduzidas por aqui. Bem, não é necessário ser antropólogo para conseguir enxergar que os comportamentos sociais humanos também são frutos das adaptações que fazemos diante das necessidades que se colocam à nossa frente. Dentre essas necessidades estão as básicas, que prioritariamente nos movem, e dentre essas necessidades básicas temos as que compartilhamos com o restante dos animais, como as necessidades de alimentação, proteção e reprodução, incluindo aí a pulsão sexual. Como particularidades humanas temos as necessidades advindas do raciocínio, como a necessidade de entender as coisas, a necessidade de entretenimento, a necessidade de conforto perante a previsível morte e a necessidade de achar um sentido para a vida. Foi encima deste grande leque de necessidades que o ser humano forjou as sociedades humanas, os seus costumes e as suas religiões. Algumas dessas necessidades se mantém atuantes após a morte física, especialmente as ligadas ao raciocínio, mas seriam essas necessidades capazes de criar um tipo de sociedade espiritual que servisse de modelo para a sociedade terrestre? Mais uma vez sou obrigado a opinar que não, e digo isso porque as principais molas propulsoras do ser encarnado, e que ajudaram a moldar a nossa sociedade, não encontram similaridade no mundo espiritual. Não há, por exemplo, a necessidade crônica de alimentação e, como não há essa necessidade, também não existem estruturas de produção e distribuição de alimentos e nem as relações sociais advindas da formação de estruturas desse tipo, como o comércio e o trabalho; também não há a pulsão sexual que une os casais e que é a responsável pela maior parte dos nascimentos, não há a formação de casais visando à procriação e não há o esforço direcionado para a criação de proles, uma constante por aqui, o que há, muitas vezes, são tentativas de reproduzir lá as uniões que se formaram aqui por causas ligadas as necessidades do mundo material.

Para finalizar, citarei abaixo um trecho do livro Nosso Lar que fala sobre as semelhanças entre o mundo espiritual e o material. Há quem veja nesse trecho um mundo material como cópia grosseira do mundo espiritual; eu discordo; segundo as próprias palavras de André Luiz o mundo espiritual é que seria uma cópia melhorada do mundo material. Existe uma importante diferença entre essas duas visões. Acho que é nessa casca de banana interpretativa que muitos escorregam e acho que foi nela que os roteiristas de Nosso Lar também escorregaram.

CAPÍTULO 7

EXPLICAÇÕES DE LÍSIAS

À medida que procurava habituar-me aos deveres novos, sensações de desafogo me aliviavam o coração. Diminuíram as dores e os impedimentos de locomoção fácil. Notava, porém, que, a recordações mais fortes dos fenômenos físicos, me voltavam a angústia, o receio do desconhecido, a mágoa da inadaptação. Apesar de tudo, encontrava mais segurança dentro de mim.

Deleitava-me, agora, contemplando os horizontes vastos, debruçado às janelas espaçosas. Impressionavam-me, sobretudo, os aspectos da Natureza.

Quase tudo, melhorada cópia da Terra. Cores mais harmônicas, substâncias mais delicadas. Forrava-se o solo de vegetação. Grandes árvores, pomares fartos e jardins deliciosos. Desenhavam-se montes coroados de luz, em continuidade à planície onde a colônia repousava.

Todos os departamentos apareciam cultivados com esmero. A pequena distância, alteavam-se graciosos edifícios. Alinhavam-se a espaços regulares, exibindo formas diversas. Nenhum sem flores à entrada, destacando-se algumas casinhas encantadoras, cercadas por muros de hera, onde rosas diferentes desabrochavam, aqui e ali, adornando o verde de cambiantes variados. Aves de plumagens policromas cruzavam os ares e, de quando em quando, pousavam agrupadas nas torres muito alvas, a se erguerem retilíneas, lembrando lírios gigantescos, rumo ao céu.

Das janelas largas, observava, curioso, o movimento do parque.

Extremamente surpreendido, identificava animais domésticos, entre as árvores frondosas, enfileiradas ao fundo.

Nas minhas lutas introspectivas, perdia-me em indagações de toda sorte.

Não conseguia atinar com a multiplicidade de formas análogas às do planeta, considerando a circunstância de me encontrar numa esfera propriamente espiritual.

Lísias, o companheiro amável de todos os dias, não regateava explicações.

A morte do corpo não conduz o homem a situações miraculosas, dizia.

Todo processo evolutivo implica gradação. Há regiões múltiplas para os desencarnados, como existem planos inúmeros e surpreendentes para as criaturas envolvidas de carne terrestre. Almas e sentimentos, formas e coisas, obedecem a princípios de desenvolvimento natural e hierarquia justa.



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