domingo, 1 de agosto de 2010

O perispírito molda o corpo físico?

Por todas as conversas que já tive com espíritas, fiquei com a impressão de que a grande maioria deles acredita que o perispírito modela o corpo físico ou que ele é o molde, mas será que o perispírito possui realmente essa propriedade modeladora? Escolhi esse tema polêmico (só não é mais polêmico por sua quase unanimidade) para a minha primeira postagem no blog.

Em primeiro lugar é necessário dizer que os muitos espíritas que acreditam nessa hipótese não a tiraram do nada. Existe uma extensa literatura espírita que a corrobora, direta ou indiretamente, escrita por espíritas históricos e por Espíritos, em obras psicografadas. Mas isso não seria o bastante para se fechar a questão. Diriam os mais afoitos. Não... não para esse blog! Aqui nada estará imune às análises, nem mesmo as unanimidades. Os conceitos demonstram serem fortes quando as suas raízes estão fincadas no solo firme da razão, quando isso não acontece permanecem sob o risco de serem derrubados pela primeira ventania forte que passar... e ventar forte é o grande objetivo deste blog.

Fui buscar nos primórdios do Espiritismo as origens desta idéia que veio a se tornar quase um novo postulado espírita: a idéia de que o perispírito molda o corpo. Encontrei os primeiros indícios dela em Léon Denis, em Gabriel Delanne e em outros autores clássicos; na codificação de Kardec não encontrei indícios suficientes que apoiassem essa tese, pelo contrário, encontrei indícios contrários a ela. Por que expoentes do Espiritismo, alguns contemporâneos a Kardec e conhecedores de sua obra, tomaram essa linha de pensamento? Bem... como não podemos conhecer totalmente os caminhos que as mentes trilham, temos que nos contentar em avaliar as suas conclusões, antes, porém, para evitar erros de interpretação e de conceituação, acho por bem uniformizar a linguagem que será usada aqui, para que possa haver um melhor entendimento.

O conceito da expressão “modelar” merece ser muito bem definido e para isso vou colocar um exemplo simples, de fácil visualização: imagine um cozinheiro e uma receita de bolo de chocolate muito bem detalhada, que informa até as medidas da forma que deve ser usada. O cozinheiro resolve fazer esse bolo e segue rigorosamente a receita, finalizando o belo bolo. Nesse caso o que modelou o bolo? O cozinheiro ou a receita? Na minha concepção, se a receita foi rigorosamente seguida, foi ela a responsável pelo aspecto final do bolo, ou seja, foi ela que modelou o bolo. O cozinheiro teve o seu papel na escolha e no trabalho de fazer, mas se tivesse escolhido fazer outro bolo, o de fubá, por exemplo, ele teria de seguir rigorosamente a outra receita e sairia outro bolo, com aspecto final totalmente diferente.

Vencida essa etapa de conceituação, colocarei partes da literatura espírita que trata da modelagem dos corpos. Apesar de, em minhas pesquisas, ter coletado muitos trechos, de diversos autores, não os colocarei todos aqui, sob pena de tornar a postagem longa e cansativa; para minimizar esse problema colocarei apenas alguns poucos textos representativos da idéia dos autores.

A Evolução Anímica (Gabriel Delanne / 1857 - 1926)

E forçoso admitir, portanto, a intervenção de um novo fator que determine as condições construtivas do edifício vital. Precisamos recorrer ao perispírito, pois ele é que contém o desenho prévio, a lei onipotente que servirá de regra inflexível ao novo organismo, e que lhe assinará o lugar na escala morfológica, segundo o grau de sua evolução no embrião que se executa essa ação diretiva.

A Reencarnação (Gabriel Delanne)

O perispírito é a realização física dessa "idéia diretora", que Claude Bernard assinala como a verdadeira característica da vida. É também o desenho vital que cada um de nós realiza e conserva durante toda a existência.

Depois da Morte (Léon Denis / 1846 - 1927)

O perispírito torna-se, portanto, um molde fluídico, elástico, que calca sua forma sobre a matéria. Daí dimanam as condições fisiológicas do renascimento. As qualidades ou defeitos do molde reaparecem no corpo físico, que não é, na maioria dos casos, senão imperfeita e grosseira cópia do perispírito.

O Problema do Ser (Léon Denis)

Esse corpo sutil, essa duplicação fluídica, existe em nós em estado permanente. Embora invisível, serve, entretanto, de molde para nosso corpo material. Esse não representa, no destino do ser, o papel mais importante. O corpo visível, o corpo físico varia. Formado de acordo com as necessidades da etapa terrestre, é temporário e perecível; desagrega-se e se dissolve com a morte. O corpo sutil permanece; existe antes do nascimento, sobrevive às decomposições do túmulo e acompanha a alma em suas transmigrações. É o modelo, a matriz original, a verdadeira forma humana que vêm incorporar-se, por um tempo, nas moléculas da carne, e que se mantém no meio de todas as variações e de todas as correntes materiais.

Pensamento e vontade (Ernesto Bozzano / 1862 - 1943)

Tudo isto nos parece extraordinariamente significativo, em correspondência com a intuição do poeta Edmond Spencer, isto é - que as formas fluídicas de vegetais, animais e seres humanos apareceriam previamente às formas orgânicas em vias de desenvolvimento, fazendo assim concluir que, por efeito da lei de afinidades, as moléculas de matéria viva ficariam em estado de gravitar infalivelmente no órgão que lhes compete, graças ao modelo fluídico preexistente, no qual está determinado, de antemão, o ponto exato da colocação de cada molécula.

Missionários da Luz (psicografado por Chico Xavier – 1ª ed: 1943)

(André Luiz perguntando a Alexandre)
- Nosso irmão reencarnante apresentar-se-á, mais tarde, entre os homens, tal qual vivia entre nós? Já que as suas instruções se baseiam na forma perispiritual preexistente, terá ele a mesma altura, bem como as mesmas expressões que o caracterizavam em nossa esfera?
Alexandre respondeu sem titubear:
- Raciocine devagar, André! Falamos da forma preexistente, nela significando o modelo de configuração típica ou, mais propriamente, o «uniforme humano». Os contornos e minúcias anatômicas vão desenvolver-se de acordo com os princípios de equilíbrio e com a lei da hereditariedade. A forma física futura de nosso amigo Segismundo dependerá dos cromossomos paternos e maternos; adicione, porém, a esse fator primordial, a influência dos moldes mentais de Raquel, a atuação do próprio interessado, o concurso dos Espíritos Construtores, que agirão como funcionários da natureza divina, invisíveis ao olhar terrestre, o auxilio afetuoso das entidades amigas que visitarão constantemente o reencarnante, nos meses de formação do novo corpo, e poderá fazer uma idéia do que vem a ser o templo físico que ele possuirá, por algum tempo, como dádiva da Superior Autoridade de Deus, a fim de que se valha da bendita oportunidade de redenção do passado e iluminação para o futuro, no tempo e no espaço.

Evolução em Dois Mundos (Espírito André Luiz – psicografado por Chico Xavier e Waldo Vieira – 1ª ed: 1958)
Os Espíritos categoricamente superiores, quase sempre, em ligação sutil com a mente materna que lhes oferta guarida, podem plasmar por si mesmos e, não raro, com a colaboração de instrutores da Vida Maior, o corpo em que continuarão as futuras experiências, interferindo nas essências cromossômicas, com vistas às tarefas que lhes cabem desempenhar.
Os Espíritos categoricamente inferiores, na maioria das ocasiões, padecendo monoideísmo tiranizante, entram em simbiose fluídica com as organizações femininas a que se agregam, experimentando o definhamento do corpo espiritual ou o fenômeno de “ovoidização”, sendo inelutavelmente atraídos ao vaso uterino, em circunstâncias adequadas, para a reencarnação que lhes toca, em moldes inteiramente dependentes da hereditariedade, como acontece à semente, que, após desligar-se do fruto seco, germina no solo, segundo os princípios organogênicos a que obedece, tão logo encontre o favor ambiencial.

A Caminho da Luz (Emmanuel – psicografado por Chico Xavier – 1ª ed: 1938)

Os séculos correram o seu velário de experiências penosas sobre a fronte dessas criaturas de braços alongados e de pelos densos, até que um dia as hostes do invisível operaram uma definitiva transição no corpo perispiritual preexistente, dos homens primitivos, nas regiões siderais e em certos intervalos de suas reencarnações.
Surgem os primeiros selvagens de compleição melhorada, tendendo à elegância dos tempos do porvir.
Uma transformação visceral verificara-se na estrutura dos antepassados das raças humanas.
Como poderia operar-se semelhante transição? Perguntará o vosso critério científico.
Muito naturalmente.
Também as crianças têm os defeitos da infância corrigidos pelos pais, que as preparam em face da vida, sem que, na maioridade, elas se lembrem disso.

Roteiro (Emmanuel – psicografado por Chico Xavier - 1ª ed: 1952 )

O perispírito é, ainda, corpo organização que, representando o molde fundamental da existência para o homem, subsiste, além do sepulcro, de conformidade com o seu peso específico.
Formado por substâncias químicas que transcendem a série estequiogenética conhecida até agora pela ciência terrena, é aparelhagem de matéria rarefeita, alterando-se, de acordo com o padrão vibratório do campo interno.
Organismo delicado, extremo poder plástico, modifica-se sob o comando do pensamento. É necessário, porém, acentuar que o poder apenas existe onde prevaleçam a agilidade e a habilitação que só a experiência consegue conferir.
Nas mentes primitivas, ignorantes e ociosas, semelhante vestidura se caracteriza pela feição pastosa, verdadeira continuação do corpo físico, ainda animalizado ou enfermiço. O progresso mental é o grande doador de renovação ao equipamento do espírito em qualquer plano de evolução.

O Espírito e o Tempo (Herculano Pires / 1914 - 1979)

O Espiritismo esclarece o que podemos chamar “a mecânica dessa manifestação”, através de uma concepção trinária do homem. O elemento fundamental da evolução psicogenética é o espírito, o próprio ser que se projeta na existência. Nele está o poder que aglutina os demais elementos, que os coordena e os põe em desenvolvimento. Em segundo lugar aparece o perispírito ou corpo espiritual, duplicata energética do corpo físico, ou o modelo energético deste, como queria Claude Bernard. E em terceiro lugar, o próprio corpo físico, resultante de um verdadeiro processo dialético, síntese orgânica do espírito e do perispírito, que permite a presença do ser na existência.

Revisão do Cristianismo (Herculano Pires)

... A Física provou a existência do outro mundo (da antimatéria), interpenetrado invisivelmente no mundo ilusório da matéria densa. A Biofísica provou a existência do corpo espiritual do homem (bioplásmico) e suas funções de vitalizador, organizador e controlador do corpo material, bem como a sua natureza de corpo da ressurreição...

... A teoria espírita do corpo espiritual, define esse corpo como semi-material, constituído de energias físicas e energias de natureza extra-físicas ou espirituais. Foi por isso que Kardec recusou-lhe o nome tradicional de corpo espiritual, preferindo chamá-lo de perispírito, que equivale a envoltório do espírito, como o perisperma que envolve as sementes vegetais. Quanto às funções, o corpo bioplásmico se identifica inteiramente com o perispírito: E ele que dá vida ao corpo material, que o organiza segundo o seu modelo próprio, que rege todas as suas funções, mantém o seu equilíbrio orgânico e controla a sua higidez...

Concepção Existencial de Deus (Herculano Pires)

Cada embrião humano traz em si mesmo o plano de seu corpo, como a semente de uma planta traz o plano da árvore em seu interior. Mas se, no vegetal e no animal, esse plano se desenvolve por si mesmo, através das leis naturais, no homem o problema é mais complexo e o espírito colabora no desenvolvimento do plano. A mente, que não é física, atua sobre a formação do corpo de acordo com o esquema a desenvolver. A integração espírito corpo se processa através de todo o período de gestação. A mente age como sonâmbula, sua ação é praticamente catalítica, mais de presença do que propriamente de ação. Ela sabe o que será o seu corpo e o estrutura lentamente, sem pressa, na medida do tempo que lhe é concedido. As leis do espírito controlam essa atividade sonambúlica. Duas linhas de hereditariedade estão presentes no embrião: a hereditariedade genética e a hereditariedade psíquica. A primeira vem dos genes paterno e materno, a segunda vem do próprio espírito, do ser espiritual que se reencarna, das experiências, acertos e erros do passado.

Espírito, Perispírito e Alma (Hernani Guimarães Andrade / 1913 - 2003)

Cap III
Em nossa hipótese de trabalho, descrevemos o Espírito propriamente dito como sendo uma individualidade feita de “matéria Psi” formando uma estrutura tetradimensional, possuindo uma “cúpula” e um “domínio informacional histórico” – ou Modelo Organizador Biológico” (MOB) – capaz de atuar sobre a matéria orgânica e provocar-lhe o desenvolvimento biológico. Este “arquétipo” auto-organizado teria uma compleição composta de átomos espirituais – “psi-átomos” – polarizados e combinados entre si, firmemente empilhados na direção do eixo T° T à custa de um campo de natureza magnética – Campo Biomagnético (CBM) – o qual consegue agir também ortogonalmente sobre o nosso espaço físico tridimensório.

Cap X
O perispírito possui dois componentes: o “corpo astral” e o “corpo vital”. Este último limita-se com o corpo físico e o MOB. Pelos fenômenos do desdobramento astral (OBE), bem como pelos de ectoplasmia, conclui-se que o corpo vital deve estar mais intimamente relacionado com o corpo bioplasmático.



Encerrada esta demorada fase de citações, que se tornou necessária para demonstrar a amplitude que este tema foi tratado pelos autores espíritas, vamos analisá-las em um contexto mais amplo onde a afirmativas “o perispírito molda o corpo físico” ou “o perispírito é o molde do corpo físico” mostram-se uma simplificação que nem sempre espelha todas as nuances do pensamento desses autores encarnados e desencarnados.

É verdade que a vida traz consigo muitos mistérios e um dos mais intrigantes é, com certeza, a forma como a matéria inerte passa a obedecer a comandos irresistíveis e a se modelar em formas organizadas e funcionais, gerando corpos perfeitos, obras-primas da natureza. Foi no intuito de desvendar este grande mistério que mentes de cientistas e filósofos produziram trabalhos de valor inestimável, por sua elaboração mental, ainda que a desejada resolução tenha resistido a todas as investidas.

O Iluminismo dos séculos anteriores legou ao séc. XIX um ambiente intelectualmente fervilhante, com imensa produção filosófica e científica. Alargadas as amarras religiosas, os homens se atreviam a buscar respostas para os mais complexos mistérios do universo, inspirados por Isaac Newton, Kant, Voltaire, Espinosa e muitos outros. Foi neste ambiente que surgiu o Espiritismo, pelas mãos de Kardec e de Espíritos que se dispuseram a nos revelar um pouco da nossa essência e dos mecanismos do mundo espiritual. Este ambiente intelectualmente pujante também nos legou filósofos como Nietzsche, Marx e Schopenhauer, assim como os cientistas como Charles Darwin, Lamarck, Pasteur, Gregor Mendel e Claude Bernard. Os pensadores espíritas não ficaram imunes à febre da busca pelo entendimento do mundo e, associando os conhecimentos advindos da ciência terrenas com informações fornecidas pelos Espíritos, formularam os seus sistemas, sendo que alguns deles até hoje influenciam fortemente o Espiritismo.

Em minhas pesquisas detectei uma forte fonte de influência na literatura espírita de Gabriel Delanne. Este, munido das concepções do importante fisiologista francês Claude Bernard, adotou a tese de algo que este cientista, maravilhado com a perfeição dos corpos que estudava, chamou de “idéia diretora”, um algo abstrato que regeria a formação, desenvolvimento e funcionamento das “máquinas” vivas. Empiricamente é fácil constatar que de fato há um algo abstrato que rege a construção dos corpos, um algo que não se desvia do seu objetivo de transformar um embrião unicelular de um animal ou uma semente de planta em um espécime adulto, um algo que poderia muito bem ser chamado, como fez Claude Bernard, de “idéia diretora”. Que esse algo existe, é inegável, o que é esse algo que é um grande mistério, até hoje. Gabriel Delanne, talvez empolgado pelos recentes estudos acerca dos Espíritos e ciente de que eles, os Espíritos, mantinham sua forma corporal após a morte, se apressou em creditar essa propriedade modeladora ao perispírito. Não o fez, até onde eu saiba, por instrução de algum Espírito, fez por achar lógico, fez por saber, através do Espiritismo, que a matéria inerte não se organiza sozinha, que ela precisa de algo para “animalizá-la”. Mas não teria Dellane se precipitado nessa conclusão que foi tão bem explicitada no trecho colocado acima do livro “A Evolução Anímica”? Continuemos...

Léon Denis e Ernesto Bozzano seguiram a mesma linha de Gabriel Delanne, possivelmente influenciado por ele, e no início do séc. XX já se podia dizer que essa propriedade modeladora do perispírito havia tomado ares de mais um postulado espírita. As pesquisas científicas, iniciadas por Gregor Mendel e sua experiência com ervilhas (1866) e que culminaram na descoberta dos cromossomos e dos genes, no início do séc.XX, só passaram a ser realmente consideradas pela literatura espírita a partir das psicografias de Chico Xavier, pelo Espírito André Luiz. Gabriel Delanne deu uma idéia das noções científicas de sua época ao tratar o núcleo das células como algo sólido e sem importância nesse outro trecho de “A Evolução Anímica” (1897):

“Mas, como é feita essa célula? Posto que extraordinariamente variável nas formas, ela se compõe, sempre, de três partes: um núcleo interior, sólido; um líquido que banha esse núcleo, e uma membrana que envolve o todo. A parte essencial, verdadeiramente viva, é o líquido, a que chamaram protoplasma.”

Hoje pode parecer estranho falar de modelagem de corpos sem citar as instruções contidas nos genes, mas foi dessa forma, desconhecendo o DNA, que os primeiros espíritas tentaram visualizar esse fenômeno e chegaram as suas conclusões. A literatura psicografada de Chico Xavier, que passou a incluí-los em suas descrições, descreveu o perispírito como um agente capaz de mudar as “essências cromossômicas” para moldar o corpo. Apesar de ter sido dito que somente Espíritos “categoricamente superiores” teriam essa faculdade, o que ficou para a maioria dos espíritas foi que André Luiz estaria fortalecendo a afirmativa de ser o perispírito o agente modelador do corpo físico. Discordo. Se para alterar a modelagem do corpo é necessário atuar nos cromossomos, seriam estes os reais agentes modeladores dos corpos, as instruções da receita de bolo, como conceituado no início do artigo, além do mais, se somente os Espíritos “categoricamente superiores” conseguiriam este feito, isto quer dizer que toda a forma de vida vegetal, animal e mesmo grande parte da hominal, teriam os seus corpos formados “em moldes inteiramente dependentes da hereditariedade, como acontece à semente que, após desligar-se do fruto seco, germina no solo, segundo os princípios organogênicos a que obedece, tão logo encontre o favor ambiencial”, como André Luiz mesmo disse no trecho citado acima, de Evolução em Dois Mundos. É claro que uma receita de bolo não faz um bolo sozinha, assim como o DNA não faz um corpo sozinho, mas falaremos sobre isso mais à frente.

Um autor que, a meu ver, é mal compreendido, é Hernani Guimarães Andrade. Facilmente ouvimos falar, em ambiente espírita, que o perispírito é o MOB (Modelo Organizador Biológico). Qualquer um que se disponha a estudar a sua obra verá que não é isso que ele propõe. Como está na citação colocada no início, o MOB seria uma estrutura tetradimensional, que faria parte do Espírito, feita em matéria-psi, com um “domínio informacional histórico” que promoveria o desenvolvimento do corpo através do tempo; a meu ver uma idéia diretora, igual à de Claude Bernard, só que escrita em matéria-psi. Eu, particularmente, não gosto muito das hipóteses levantadas por Hernani Guimarães Andrade, mas acho importante que os espíritas tentem se inteirar delas antes de fazerem simplificações que mais confundem do que esclarecem. Na segunda citação de Hernani que coloquei fica explicito que o próprio perispírito também seria um produto do MOB e este último, repito, faria parte do Espírito.

Herculano Pires, defensor da pureza doutrinária, foi um crítico ferrenho das hipóteses levantadas por Hernani Guimarães Andrade, a ponto de escrever um livro, “A Pedra e o Joio”, para atacar a Teoria Corpuscular do Espírito, hipótese levantada por Hernani. O que fascinava Herculano Pires eram as experiências implementadas na União Soviética, relacionadas às fotografias Kirlian que, segundo ele, comprovariam a existência do corpo bioplasmático, corpo esse que seria, também segundo ele, nada mais nada menos que o perispírito citado por Kardec. A verdade é que até hoje não houve, pela ciência, nenhuma definição do que venha a ser, com certeza, as formas detectadas nas fotografias Kirlian, mas entendo a empolgação deste autor.

Na citação colocada no início do artigo, do livro O Espírito e o Tempo, Herculano mistura os conceitos dizendo que o elemento fundamental da “evolução psicogenética” seria o Espírito que, junto com o perispírito (modelo energético do corpo físico), construiriam o corpo físico, em uma “síntese orgânica de espírito e do perispírito”, palavras dele. Claude Bernard também está lá, provando a sua grande influência na literatura espírita, mas Herculano, ao citar o perispírito como modelo energético, foge um pouco da noção original de idéia diretora, do fisiologista francês, pois, afinal de contas, energia e idéia são conceitos completamente diferentes.

Em toda sua obra pouco se fala do DNA ou dos genes; encontrei referência a eles apenas na obra “Concepção Existencial de Deus”, também citada acima; o interessante desse trecho é que ele deixa claro que em animais e vegetais os corpos se desenvolveriam por si mesmo, através das leis naturais, e que no homem o espírito apenas colaboraria no desenvolvimento do plano. Por colaboração eu entendo como algo que pode existir ou não, sem ser fundamental para o processo como um todo. Essa tese de Herculano acaba sendo bem parecida com a de André Luiz, quando diz que somente Espíritos “categoricamente superiores” conseguiriam alterar as “essências cromossômicas” e que os inferiores dependeriam de moldes inteiramente dependentes da hereditariedade, mas acho que deveria constar ao menos uma menção dela na tal “síntese orgânica” citada em “O Espírito e o Tempo”.

É importante que se diga que Kardec jamais disse que o perispírito seria o molde do corpo físico ou sequer que seria fundamental para a formação de um corpo, ao contrário, na pergunta 356 do O Livro dos Espíritos temos:

356. Entre os natimortos alguns haverá que não tenham sido destinados à encarnação de Espíritos?
“Alguns há, efetivamente, a cujos corpos nunca nenhum Espírito esteve destinado. Nada tinha que se efetuar para eles. Tais crianças então só vêm por seus pais.”
a) - Pode chegar a termo de nascimento um ser dessa natureza?
“Algumas vezes; mas não vive.”


Sobre esse assunto específico, André Luiz falou, em Evolução em Dois Mundos:

“Geração Frustrada
— Como compreenderemos os casos de gestação frustrada quando não há Espírito reencarnante para arquitetar as formas do feto?
— Em todos os casos em que há formação fetal, sem que haja a presença de entidade reencarnante, o fenômeno obedece aos moldes mentais maternos.”

Curiosa essa resposta de André Luiz. O que seriam esses “moldes mentais maternos”? Não bastariam as leis naturais e hereditárias para fazerem funcionar a moldelagem do corpo do feto, “como acontece à semente, que, após desligar-se do fruto seco, germina no solo, segundo os princípios organogênicos a que obedece, tão logo encontre o favor ambiencial” (entre aspas outro trecho, citado acima, do livro Evolução em Dois Mundos)?

Deixei Emmanuel para o fim porque junto com a sua citação encaixarei o tema evolução. Emmanuel fala, no trecho citado do A Caminho da Luz, que “os séculos correram o seu velário de experiências penosas sobre a fronte dessas criaturas de braços alongados e de pelos densos, até que um dia as hostes do invisível operaram uma definitiva transição no corpo perispiritual preexistente, dos homens primitivos, nas regiões siderais e em certos intervalos de suas reencarnações”. Ora... Emmanuel deixa a entender que as mudanças evolutivas seriam aplicadas aos perispíritos, na erraticidade, e que estes é que as reproduziriam nos corpos. Não faz sentido, para mim, essa descrição. Não seria mais produtivo efetuar essas mudanças diretamente nos cromossomos, visto que assim as mudanças entrariam diretamente na cadeia de passagem hereditária, do que promovê-las alterando individualmente nos perispíritos? A evolução das espécies está intrinsecamente ligada às conquistas associadas às passagens hereditárias de informações, aliás, essa é uma das principais constatações que me convenceram de que Gabriel Dellane se equivocou ao creditar aos perispíritos a modelagem dos corpos. As mudanças evolutivas não se espalham aleatoriamente, como até poderiam acontecer, através de reencarnações aqui e ali, com perispíritos modificando a genética em famílias distintas; elas seguem rigorosamente as leis hereditárias, logo, o que molda os novos corpos, modificados, são as novas “receitas de bolo” que são passadas de pais para filhos e não os perispíritos. É a seleção natural que se encarrega de eliminar mudanças prejudiciais e promover as mudanças benéficas.

O empirismo nos mostra que podemos muito bem formar conhecimento mesmo desconhecendo todas as minúcias dos processos. A Medicina é pródiga em exemplos, a Física também, é pelo empirismo que sabemos, mesmo sem ter noção de como funciona a gravidade, que se pularmos do quinto andar de um prédio nos esborracharemos no chão. Isaac Newton não precisou saber o que causa a gravidade para formular equações que simulavam quase perfeitamente a sua atuação. O que isso tem a ver com a modelagem dos corpos? Muito! Não sabemos, e creio que tão cedo não saberemos, o que faz com que os códigos genéticos ou mesmo o DNA, como um todo, já que os seus segredos podem estar em outros pontos que não sejam os genes, transmitam as informações construtivas dos corpos de uma geração para outra, mas podemos ver, empiricamente, que essa transmissão efetivamente acontece. Vemos isso nas experiências com clones, vemos isso nos gêmeos univitelinos (clones naturais) e vemos isso nas experiências transgênicas. Outra informação que o empirismo nos fornece é que plantas não necessitam de agente central, indivisível, para comandar a construção do seu corpo. Vemos isso pela simples experiência de cortar um galho de roseira e plantá-lo em outro lugar, onde, se esse pequeno galho pega, se transforma em outra roseira. Coloquei o exemplo da roseira porque é pensamento comum, entre espíritas, que as plantas possuiriam princípios inteligentes individualizados “reencarnados” que comandariam o seu crescimento, podemos ver que o empirismo põe em xeque esta noção, especialmente a questão da individualidade indivisível.

Comentei, alguns parágrafos atrás, que uma receita de bolo não faz um bolo sozinha, assim como um DNA não molda um corpo sozinho; é verdade, tanto a receita quanto o DNA apenas informam como fazer, mas não fazem, então, o que é que faz esse trabalho? Qual é o cozinheiro do bolo? O que constrói a partir do DNA, seguindo as suas instruções? Estes são ótimos questionamentos, para tentar respondê-los só podemos recorrer ao levantamento de hipóteses. Vou colocar aqui alguns trechos do “O Livro do Espíritos” para embasar os meus comentários e hipóteses, ao final.

23. Que é o espírito?
“O princípio inteligente do Universo.”
a) - Qual a natureza íntima do espírito?
“Não é fácil analisar o espírito com a vossa linguagem. Para vós, ele nada é, por não ser palpável. Para nós, entretanto, é alguma coisa. Ficai sabendo: coisa nenhuma é o nada e o nada não existe.”

24. O espírito é sinônimo de inteligência?
“A inteligência é um atributo essencial do espírito. Uma e outro, porém, se confundem num princípio comum, de sorte que, para vós, são a mesma coisa.”

27. Há então dois elementos gerais do Universo: a matéria e o espírito?
“Sim e acima de tudo Deus, o criador, o pai de todas as coisas. Deus, espírito e matéria constituem o princípio de tudo o que existe, a trindade universal. Mas ao elemento material se tem que juntar o fluido universal, que desempenha o papel de intermediário entre o espírito e a matéria propriamente dita, por demais grosseira para que o espírito possa exercer ação sobre ela. Embora, de certo ponto de vista, seja lícito classificá-lo com o elemento material, ele se distingue deste por propriedades especiais. Se o fluido universal fosse positivamente matéria, razão não haveria para que também o espírito não o fosse. Está colocado entre o espírito e a matéria; é fluido, como a matéria, e suscetível, pelas suas inumeráveis combinações com esta e sob a ação do espírito, de produzir a infinita variedade das coisas de que apenas conheceis uma parte mínima. Esse fluido universal, ou primitivo, ou elementar, sendo o agente de que o espírito se utiliza, é o princípio sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe dá.”

61. Há diferença entre a matéria dos corpos orgânicos e a dos inorgânicos?
“A matéria é sempre a mesma, porém nos corpos orgânicos está animalizada.”

62. Qual a causa da animalização da matéria?
“Sua união com o princípio vital.”

64. Vimos que o espírito e a matéria são dois elementos constitutivos do Universo. O princípio vital será um terceiro?
“É, sem dúvida, um dos elementos necessários à constituição do Universo, mas que também tem sua origem na matéria universal modificada. É, para vós, um elemento, como o oxigênio e o hidrogênio, que, entretanto, não são elementos primitivos, pois que tudo isso deriva de um só princípio.”

65. O princípio vital reside em alguns dos corpos que conhecemos?
“Ele tem por fonte o fluido universal. É o que chamais fluido magnético, ou fluido elétrico animalizado. É o intermediário, o elo existente entre o espírito e a matéria.”

67. A vitalidade é atributo permanente do agente vital, ou se desenvolve tão-só pelo funcionamento dos órgãos?
“Ela não se desenvolve senão com o corpo. Não dissemos que esse agente sem a matéria não é a vida? A união dos dois é necessária para produzir a vida.”

70. Que é feito da matéria e do princípio vital dos seres orgânicos, quando estes morrem?
“A matéria inerte se decompõe e vai formar novos organismos. O princípio vital volta à massa donde saiu.”

71. A inteligência é atributo do princípio vital?
“Não, pois que as plantas vivem e não pensam: só têm vida orgânica. A inteligência e a matéria são independentes, porquanto um corpo pode viver sem a inteligência. Mas, a inteligência só por meio dos órgãos materiais pode manifestar-se. Necessário é que o espírito se una à matéria animalizada para intelectualizá-la.”

(comentário de Kardec) A inteligência é uma faculdade especial, peculiar a algumas classes de seres orgânicos e que lhes dá, com o pensamento, a vontade de atuar, a consciência de que existem e de que constituem uma individualidade cada um, assim como os meios de estabelecerem relações com o mundo exterior e de proverem às suas necessidades.
Podem distinguir-se assim: 1°, os seres inanimados, constituídos só de matéria, sem vitalidade nem inteligência: são os corpos brutos; 2°, os seres animados que não pensam, formados de matéria e dotados de vitalidade, porém, destituídos de inteligência; 3°, os seres animados pensantes, formados de matéria, dotados de vitalidade e tendo a mais um princípio inteligente que lhes outorga a faculdade de pensar.

72. Qual a fonte da inteligência?
“Já o dissemos; a inteligência universal.”

73. O instinto independe da inteligência?
“Precisamente, não, por isso que o instinto é uma espécie de inteligência. É uma inteligência sem raciocínio. Por ele é que todos os seres provêem às suas necessidades.”

76. Que definição se pode dar dos Espíritos?
“Pode dizer-se que os Espíritos são os seres inteligentes da criação. Povoam o Universo, fora do mundo material.”
NOTA - A palavra Espírito é empregada aqui para designar as individualidades dos seres extracorpóreos e não mais o elemento inteligente do Universo.

Em primeiro lugar é necessário que se frise que quase todas as vezes que a palavra “espírito” foi colocada nos capítulos II,III e IV da primeira parte do “O Livro dos Espíritos”(até a questão 75), ela foi colocada para designar um princípio universal, não individualizado, que junto com a matéria e Deus formariam a trindade universal. Deixei a nota da questão 76 como ilustração disso. Fiz questão de frisar esse ponto porque é muito comum a interpretação de que os Espíritos, seres inteligentes, seriam o princípio inteligente do universo citado na questão 23, e daí surgem diversos problemas de interpretação no restante da obra. Na edição francesa Kardec designa o princípio inteligente do universo como "esprit" (inicial minúscula) e os seres extracorpóreos como "Esprit" (inicial maiúscula). É o que vemos nos textos acima. Infelizmente algumas traduções brasileiras, inclusive a mais popular, de Guillon Ribeiro (FEB), não respeitaram essa regra, aumentando os problemas de interpretação.

Pelo que podemos ver nas questões acima, os seres vivos seriam animados pelo princípio vital e este princípio seria um intermediário entre espírito (princípio inteligente do universo) e a matéria. Para intelectualizar a matéria animada seria necessária a sua união com o espírito - princípio inteligente do universo (PIU), não individualizado; é preciso reforçar isso porque é aqui que acontecem as grandes confusões; é aqui que passam a exigir “Espíritos” ou “PIs” para animar e intelectualizar, via reencarnação, toda e qualquer espécie animal, desde a mais simples bactéria. Por intelectualização entendo como a capacidade de fazer escolhas. Todo animal, por mais instintivo que seja, é capaz de fazer escolhas.

Temos agora, finalmente, o nosso cozinheiro, algo capaz de ler as instruções da receita e fazer o bolo, capaz de ler as instruções do DNA e moldar os corpos: o princípio vital. Um intermediário entre o espírito (PIU) e a matéria, com um pé no mundo das idéias, representado pelo espírito (PIU) e outro no mundo da energia e matéria (como sabemos hoje, pela Física moderna, energia e matéria são conceitos que se misturam).

A observação empírica nos traz outro fato relevante: todo novo ser vivo que conhecemos surge a partir de um outro, também vivo; não observamos o surgimento de um ser vivo diretamente da matéria inerte. Isto quer dizer que existe uma continuidade na ligação entre os seres vivos e o princípio vital, uma ligação que quando é rompida não consegue se reatar. Quer pela semente, pelo galho ou pelo embrião, se a vida conseguiu seguir em frente, formando descendentes, é porque essa ligação não foi rompida. Não sei se ainda hoje o princípio vital e a matéria conseguiriam se unir naturalmente, fato é que um dia eles se uniram e criaram neste planeta um algo maravilhoso chamado vida. A saga desta união se mantém até hoje, com o Espírito (PIU) buscando novas formas para se manifestar, vivendo, sentindo, amando, modelando e remodelando as formas, e passando as novas informações adiante, seja pelo DNA ou por qualquer outra forma de passagem, conhecida ou ainda não conhecida.

Admito, é claro, que Espíritos reencarnantes possam influenciar de alguma forma a construção do novo corpo, mas essa seria uma influência totalmente dispensável, visto que os mecanismos naturais já possuiriam todas as ferramentas necessárias à modelagem dos corpos.

Na minha opinião os Espíritos que responderam a Kardec foram simples e diretos, os espíritas é que complicaram as coisas na ânsia de colocarem os Espíritos (seres individualizados) no comando pleno da matéria. O espírito (princípio inteligente do universo) e a matéria é que “conversam” em um mesmo patamar, nós, Espíritos individualizados, somos apenas frutos dessas “conversas”.



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