quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Os espíritos e a ecologia

Neste artigo irei tratar de um assunto que se mostra cada vez mais urgente, mas que parece ser de difícil assimilação pelos espiritualistas em geral: as relações entre as demandas espirituais e as nossas responsabilidades com a preservação do planeta. A primeira vista estes parecem dois assuntos díspares, mas será que são mesmo? Nos parágrafos seguintes buscarei mirar os holofotes nessa questão para que ela seja apreciada mais atentamente.
Não se devemos esperar grandes surpresas, nessa apreciação, de espiritualistas religiosos que se pautam por dogmas dos quais emanam um Deus mágico, com o poder de mudar o universo num estalar de dedos. Estes, em geral, acabam minimizando as nossas responsabilidades para com o futuro, deixando-o a cargo do divino; o que não deixa de ser um raciocínio justo, diante das características de Deus embutidas em suas crenças. A melhor apreciação que poderíamos esperar deste tipo de espiritualista teria relação com a noção de respeito à obra divina, seria esperar que eles se dessem conta que esse planeta é um ecossistema incubador de novos Espíritos, de seres que irão povoar o mundo espiritual após a morte, seja no Céu, seja no Inferno, ou onde quer que seja, e que o mínimo que podem fazer, em respeito a Deus, é tentar preservá-la. E esse tipo de reflexão já seria um grande avanço, diante da inércia e da falta de um discurso franco e reto, por parte dos líderes religiosos, que coloque essa questão na mesa de uma forma clara para os seus fiéis.
Mas e o que poderíamos esperar de espiritualistas que colocam Deus apenas como a causa primeira? Os que não o consideram um eterno supervisor e controlador das mazelas humanas? Opa! Espera aí! Uma outra pergunta acaba se impondo neste momento: existem realmente espiritualistas assim? É melhor não entrarmos nessa polêmica sob o risco de perdermos o foco do artigo, então, para facilitar as coisas, vamos apenas supor que existe uma classe de espiritualistas que considera que também somos responsáveis pelo nosso futuro; que fazemos parte de uma sociedade de espíritos, encarnados e desencarnados, que ajudou a construir o passado e que ajudará a construir o futuro, com a permissão de Deus, é claro! Será que essa suposta classe de espiritualistas poderia de alguma forma ajudar a conscientizar o restante da humanidade quanto a uma possível importância transcendente da preservação do planeta? Algo que ela jamais desconfiaria existir.
É bom lembrar que este planeta não se tornou um ecossistema incubador e acolhedor de espíritos humanos de uma hora para outra, foram necessárias eras e eras para torná-lo apto de construir um organismo biológico capaz de gerar e acolher espíritos com o poder de raciocínio e de emotividade que os humanos possuem, e que, portanto, precisamos refletir sobre o quão precioso ele é. Todos os equipamentos de exploração do universo que construímos nos dão conta do quanto é rara a conjunção de fatores que levam um planeta a abrigar a vida material, e mais rara ainda é a necessária para abrigar vida material inteligente, e com isso não estou pregando que a Terra seja a única no universo a fazer isso, é óbvio que ela não é, pois por mais rara que seja uma raridade, o que é ela diante da quase infinitude? Em resumo: que planetas capazes de abrigar a vida não são comuns, não são mesmo, estão mais para raros do que para comuns. E dentro da história desta raridade chamada Terra, participamos de um momento igualmente raro: aquele no qual uma espécie adquiriu, pelo raciocínio, o poder de mudar a história do planeta como um todo, seja para o bem, seja para o mal.
E junto com o conhecimento e o raciocínio sempre vem a responsabilidade...
Hoje, no meio espiritualista, muitos trabalham diretamente com os espíritos, e isso ocorre, mais corriqueiramente, no caso do Espiritismo e suas várias vertentes. Ainda não tive conhecimento de espíritos que tratassem esse tema com a gravidade que estou propondo, não sei se por falta de oportunidade, por falta de visão ou conhecimento, por terem crenças próximas às dos espiritualistas religiosos ou ainda, quem sabe, por enxergarem que este tema não possui uma real relevância para o mundo espiritual. Sim, conheço alusões deste tipo dentro na literatura espírita, sendo que uma delas diz que o mundo material poderia até não existir que isso não afetaria o mundo espiritual, mas ainda assim fico pensando: como podemos confiar em uma informação dessas se esses mesmos espíritos admitem desconhecer a origem dos espíritos humanos? Além do mais esse tema é sério demais para que possamos depositar toda a nossa confiança na opinião de um ou outro espírito. É preciso pesquisar mais junto a eles para dirimir essas dúvidas, e não poderia ser de outra forma; ficarmos reféns de informações de uma época onde a destruição do nosso habitat não dava pistas da dimensão que poderia chegar não é uma atitude prudente. Hoje adquirimos o poder de destruí-lo rapidamente, via hecatombe nuclear, ou mais lentamente, pela destruição contínua dos habitats, e essa dimensão destrutiva era algo inimaginável na época de Kardec. Nesse momento torna-se imperioso que algumas questões sejam reavaliadas junto aos espíritos, por exemplo: até que ponto precisamos deste planeta para reencarnar? Se os espíritos humanos só puderem reencarnar em corpos humanos e destruirmos a humanidade terrestre, como ficaríamos? Migraríamos para outro lugar? E haveria compatibilidade com corpos que tiveram outra história de formação? Afinal de contas, por que precisamos reencarnar? Precisamos reencarnar só por questões morais e evolutivas ou existem questões energéticas envolvidas nesse processo? Em ambos os casos: o que aconteceria se deixássemos de reencarnar por falta de corpos aptos para isso? Bem, se você acredita que essas questões já estão pacificadas em suas crenças, então essas minhas palavras talvez não lhe tenham muita serventia, pois elas são dirigidas aos que não fecharam questão sobre essas e muitas outras coisas, e que permanecem com as mentes abertas a novas informações.
Esse artigo nunca pretendeu fornecer um diagnóstico. O seu objetivo é, em primeiro lugar, o de incentivar novas pesquisas junto aos espíritos, porque sem o depoimento deles certamente ficaremos andando em círculos.
Não creio ser atitude prudente sentarmos no sofá, confiando que forças de cima sempre irão dar um jeito nas coisas, pois, a tirar pela história da Terra, mesmo para essas forças as coisas parecem demandar tempo, muito mais tempo do que necessita a nossa capacidade de destruição. Lavar as mãos e dizer que nada acontece por acaso, que tudo já está escrito ou que nada acontece sem a permissão divina também não deveria ser a atitude de um espiritualista prudente. As dúvidas são muitas, mas uma coisa parece certa: fingir que esse problema não existe não é a melhor forma de se lidar com ele.
Na filosofia materialista o momento é o que importa; consumir e viver ao máximo faz parte do raciocínio lógico dessa filosofia, e não haveria, por suas premissas, motivos para nos privarmos de algo por um futuro distante que, por não ser certo, não possui a relevância comparável a do presente. Então, não podemos esperar dos materialistas que eles enxerguem muito além dos seus narizes, pois lhes faltam as ferramentas para isso. Mesmo os materialistas mais éticos e conscientes possuem dificuldades em sentir a importância de um altruísmo ambiental, e são os sentimentos que nos movem, no final das contas, muito mais do que a racionalidade. Mas não podemos nos enganar achando que essas dificuldades se restringem a eles, os espiritualistas em geral também são assim, mesmo os que possuem uma apurada visão holística, isso porque normalmente os pensamentos que envolvem a vida espiritual possuem dificuldades para se misturar com os pensamentos destinados à vida material, como se tivessem propriedades diferentes, assim como a água e o óleo. Até a simples e óbvia conclusão de que nós mesmos poderemos sofrer, nas futuras encarnações, com a destruição que efetuamos hoje no meio ambiente, pode ser de difícil assimilação pelo pensamento da vida atual.

Caso exista mesmo, para o mundo espiritual, essa premência em relação a preservação do mundo material, cabe a nós, espiritualistas racionais, trazê-la a tona para mostrar aos encarnados a dimensão dos desafios que podem estar a nossa espreita, fincando-os de vez na pauta do nosso dia-a-dia. Somos os únicos a reunir condições para um dia, quem sabe, elevar a humanidade a um patamar mais holístico de pensamento. 

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A origem dos Espíritos humanos

Neste artigo dissertarei sobre hipóteses que já foram levantadas na codificação espírita sobre a origem dos Espíritos humanos; alguns livros destinados ao público espírita também serão abordados. Ele surgiu como um aprofundamento natural requerido após as publicações dos artigos “As almas e os Espíritos” e “Os instintos” onde, no primeiro, teci algumas observações a respeito das características das almas como, por exemplo, a da necessidade da existência de mecanismos naturais que permitam o armazenamento das informações específicas de cada individualidade, mecanismo esse que serviria como base segura para a estabilização e evolução das almas; no segundo artigo abordei a questão dos instintos, com atenção especial na uniformidade dos instintos carnais existentes em cada espécie, fato que não passou despercebido por Kardec e que torna evidente ser a origem dos instintos uma fonte externa às individualidades, pois se nelas tivesse sua origem a tendência à diversificação sobrepujaria facilmente a uniformidade essencial que lhe confere confiabilidade; sobre essa característica eu defendi a hipótese de a explicação mais plausível para ela ser a que leva em conta a passagem das informações instintivas pela via hereditária, ou seja, pelo DNA ou por outras formas ainda desconhecidas deste tipo de transferência de informações. Pela transmissão hereditária teríamos, no curto prazo, a replicação confiável dos instintos necessários a cada espécie, e, no longo prazo, a pequena flexibilidade que possibilitaria a evolução das espécies, via seleção natural.

Sobre a origem dos Espíritos humanos a codificação não se posicionou de forma definitiva sobre ela, ao contrário, deixou clara a sua limitação quanto sua capacidade para atingir a resolução desse mistério. Não sou eu que estou dizendo isso, foi o próprio codificador que firmou esse posicionamento e se manteve fiel a ele desde a confecção do “O Livro dos Espíritos” ao fechamento do seu último livro doutrinário: o “A Gênese”. Essa prudência deve ter surgido de informações conflitantes que recebeu dos Espíritos, mas ainda assim ela não o impediu de inserir trechos francamente favoráveis à hipótese que viria a ser a preferida entre os espíritas, a de o princípio inteligente estagiar nas formas mais simples de vida, transmigrando sempre para espécies mais evoluídas até se transformar em um Espírito humano. Comentarei sobre as implicações referentes a essa hipótese depois; agora vou deixar com vocês as palavras de Allan Kardec, que é quem melhor pode explanar sobre as dúvidas que rondaram a sua mente e que não são muito diferentes das que rondam as nossas até hoje.

O Livro dos Espíritos

(trecho do comentário da questão 613)

“O ponto de partida do Espírito é uma dessas questões que se ligam ao princípio das coisas e estão nos segredos de Deus. Não é dado ao homem conhecê-las de maneira absoluta, e ele só pode fazer, a seu respeito, meras suposições, construir sistemas mais ou menos prováveis. Os próprios Espíritos estão longe de tudo conhecer, e sobre o que não conhecem podem ter também opiniões pessoais mais ou menos sensatas.

É assim que nem todos pensam da mesma maneiras a respeito das relações existentes entre o homem e os animais. Segundo alguns, o Espírito não chega ao período humano senão depois de ter sido elaborado e individualizado nos diferentes graus dos seres inferiores da Criação. Segundo outros, o Espírito do homem teria sempre pertencido à raça humana, sem passar pela fieira animal. O primeiro desses sistemas tem a vantagem de dar uma finalidade ao futuro dos animais, que constituiriam assim os primeiros anéis da cadeia dos seres pensantes; o segundo é mais conforme a dignidade do homem e pode resumir-se da maneira seguinte:

As diferentes espécies de animais não procedem intelectualmente uma da outras, por via de progressão; assim, o Espírito da ostra não se torna sucessivamente do peixe, da ave, do quadrúpede e do quadrúmano; cada espécie é um tipo absoluto, física e moralmente, e cada um dos seus indivíduos tira da fonte universal a quantidade de princípio inteligente que lhe é necessária, segundo a perfeição dos seus órgãos e a tarefa que deve desempenhar nos fenômenos da Natureza, devolvendo-a a massa após a morte. Aqueles dos mundos mais adiantados que o nosso são igualmente constituídos de raças distintas, apropriadas às necessidades desses mundos e ao grau de adiantamento dos homens de que são auxiliares, mas não procedem absolutamente dos terrenos, espiritualmente falando. Com o homem, já não se dá o mesmo.

Do ponto de vista físico, o homem constitui evidentemente um anel da cadeia dos seres vivos; mas, do ponto de vista moral, há solução de continuidade entre o homem e o animal. O homem possui, como sua particularidade, a alma ou Espírito, centelha divina que lhe dá o senso moral e um alcance intelectual que os animais não possuem; é o ser principal, preexistente e sobrevivente ao corpo, conservando a sua individualidade. Qual é a origem do Espírito? Onde está o seu ponto de partida? Forma-se ele do princípio inteligente individualizado? Isso é um mistério que seria inútil procurar penetrar e sobre o qual, como dissemos, só podemos construir sistemas.”

No livro “A Gênese”, o último que Kardec escreveu e no qual apontou as suas amadurecidas opiniões a respeito da doutrina, ele qualificou a hipótese da transmigração entre espécies animais como apenas um sistema. Desta feita ele sequer citou os Espíritos como autores, disse apenas ser esse um sistema de filósofos espiritualistas, o que, na minha visão, revela a fragilidade que essa hipótese possuía em sua mente. Vejam:

A Gênese

(Cap. XI)

“23. - Tomando-se a Humanidade no grau mais ínfimo da escala espiritual, como se encontra entre os mais atrasados selvagens, perguntar-se-á se é aí o ponto inicial da alma humana."

"Na opinião de alguns filósofos espiritualistas, o princípio inteligente, distinto do princípio material, se individualiza e elabora, passando pelos diversos graus da animalidade. É aí que a alma se ensaia para a vida e desenvolve, pelo exercício, suas primeiras faculdades. Esse seria para ela, por assim dizer, o período de incubação. Chegada ao grau de desenvolvimento que esse estado comporta, ela recebe as faculdades especiais que constituem a alma humana. Haveria assim filiação espiritual do animal para o homem, como há filiação corporal."

"Este sistema, fundado na grande lei de unidade que preside à criação, corresponde, forçoso é convir, à justiça e à bondade do Criador; dá uma saída, uma finalidade, um destino aos animais, que deixam então de formar uma categoria de seres deserdados, para terem, no futuro que lhes está reservado, uma compensação a seus sofrimentos. O que constitui o homem espiritual não é a sua origem: são os atributos especiais de que ele se apresenta dotado ao entrar na humanidade, atributos que o transformam, tornando-o um ser distinto, como o fruto saboroso é distinto da raiz amarga que lhe deu origem. Por haver passado pela fieira da animalidade, o homem não deixaria de ser homem; já não seria animal, como o fruto não é a raiz, como o sábio não é o feto informe que o pôs no mundo."

"Mas, este sistema levanta múltiplas questões, cujos prós e contras não é oportuno discutir aqui, como não o é o exame das diferentes hipóteses que se têm formulado sobre este assunto. Sem, pois, pesquisarmos a origem do Espírito, sem procurarmos conhecer as fieiras pelas quais haja ele, porventura, passado, tomamo-lo ao entrar na humanidade, no ponto em que, dotado de senso moral e de livre-arbítrio, começa a pesar-lhe a responsabilidade dos seus atos.”

Como eu havia dito, apesar de o seu lado racional ter optado pela imparcialidade, Kardec, em dado momento, enviou sinais nada imparciais, e fez isso ao selecionar as perguntas e respostas do capítulo XI do O Livro dos Espíritos (Dos Três Reinos), o que leva muitas pessoas a penderem fortemente para a tese de a evolução do princípio inteligente se dar via reencarnação, pulando de espécie em espécie animal até chegar ao homem, quando se torna Espírito. O que mais me intriga é qual teria sido o motivo pelo qual Kardec colocou essa versão em evidência no principal livro da Doutrina Espírita sem assumi-la de forma definitiva. Provavelmente tenha optado por publicar a tese mais palatável ao público, apesar de não estar totalmente convencido dela, e por esse mesmo motivo tenha se esquivado de examinar os prós e, especialmente, os contras que ele próprio reconheceu que existiam nela.

O capítulo XI, citado anteriormente, mereceria ser transposto em sua íntegra para este artigo, mas isso o tornaria por demais extenso, motivo pelo qual colocarei apenas os seus pontos principais; são eles:

- O que diz que os animais possuiriam uma espécie de alma e que elas sobreviveriam à morte dos corpos físicos (questões 597 e 598).

- O que diz que, sobrevivendo à morte, as almas dos animais conservariam a sua individualidade, mas não a consciência de si; que elas seriam classificadas e utilizadas quase imediatamente, por Espíritos incumbidos dessa tarefa; e que elas, na no mundo espiritual, não possuiriam tempo para entrar em relação com outras criaturas (questões 598 e 600).

- O que diz que os animais estariam sujeitos a uma lei progressiva, como o homem, e que diz que nos mundos superiores, onde o homem é mais adiantado, eles também o seriam (questão 601).

- O que diz que, diferentemente do homem, que progride por ato da própria vontade”, as almas dos animais progrediriam “pela força das coisas, razão por que não estariam sujeitos à expiação” (questão 602).

- O que diz que a inteligência é uma propriedade comum a homens e animais, mas que os animais possuiriam somente a inteligência da vida material e que no homem a inteligência proporcionaria a vida moral (questão 604 a).

- O que diz que a inteligência dos homens e dos animais seriam provenientes de uma mesma origem, o elemento inteligente universal, ressaltando que a do homem teria passado por uma elaboração que a colocaria acima da do animal (questões 606 e 606 a).

- O que diz que a alma do homem, em sua origem, teria passado por uma série de existências antes de entrar na humanidade (questão 607)

As questões 607-a/b não poderiam deixar de serem transpostas em sua íntegra sem o risco de terem as suas implicações amputadas de alguma forma.

607 a) - Parece que, assim, se pode considerar a alma como tendo sido o princípio inteligente dos seres inferiores da criação, não?

“Já não dissemos que todo em a Natureza se encadeia e tende para a unidade?

Nesses seres, cuja totalidade estais longe de conhecer, é que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco e se ensaia para a vida, conforme acabamos de dizer. É, de certo modo, um trabalho preparatório, como o da germinação, por efeito do qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna Espírito. Entra então no período da humanização, começando a ter consciência do seu futuro, capacidade de distinguir o bem do mal e a responsabilidade dos seus atos. Assim, à fase da infância se segue a da adolescência, vindo depois a da juventude e da madureza. Nessa origem, coisa alguma há de humilhante para o homem. Sentir-se-ão humilhados os grandes gênios por terem sido fetos informes nas entranhas que os geraram? Se alguma coisa há que lhe seja humilhante, é a sua inferioridade perante Deus e sua impotência para lhe sondar a profundeza dos desígnios e para apreciar a sabedoria das leis que regem a harmonia do Universo.

Reconhecei a grandeza de Deus nessa admirável harmonia, mediante a qual tudo é solidário na Natureza. Acreditar que Deus haja feito, seja o que for, sem um fim, e criado seres inteligentes sem futuro, fora blasfemar da Sua bondade, que se estende por sobre todas as suas criaturas.”

b) Esse período de humanização principia na Terra?

“A Terra não é o ponto de partida da primeira encarnação humana. O período da humanização começa, geralmente, em mundos ainda inferiores à Terra. Isto, entretanto, não constitui regra absoluta, pois pode suceder que um Espírito, desde o seu início humano, esteja apto a viver na Terra. Não é freqüente o caso; constitui antes uma exceção.”

A um leitor desavisado, depois de ler estes pontos, restaria alguma dúvida sobre a origem dos Espíritos humanos? Bem, o que fica claro, para quem faz uma leitura completa da codificação, é que Kardec os colocou sem ter convicção do que escrevia e acabou deixando nesse mesmo capítulo pistas sobre as suas desconfianças, uma delas está em uma possível impossibilidade da transformação da alma animal em alma humana; essa desconfiança esta refletida neste comentário, onde Kardec expôs, sem perguntar:

604. Pois que os animais, mesmo os aperfeiçoados, existentes nos mundos superiores, são sempre inferiores ao homem, segue-se que Deus criou seres intelectuais perpetuamente destinados à inferioridade, o que parece em desacordo com a unidade de vistas e de progresso que todas as suas obras revelam.

“Tudo em a Natureza se encadeia por elos que ainda não podeis apreender. Assim, as coisas aparentemente mais díspares têm pontos de contacto que o homem, no seu estado atual, nunca chegará a compreender. Por um esforço da inteligência poderá entrevê-los; mas, somente quando essa inteligência estiver no máximo grau de desenvolvimento e liberta dos preconceitos do orgulho e da ignorância, logrará ver claro na obra de Deus. Até lá, suas muito restritas idéias lhe farão observar as coisas por um mesquinho e acanhado prisma. Sabei não ser possível que Deus se contradiga e que, na Natureza, tudo se harmoniza mediante leis gerais, que por nenhum de seus pontos deixam de corresponder à sublime sabedoria do Criador.”

No comentário da questão 613, ao falar sobre a metempsicose, ele deixa exposta novamente as suas dúvidas ao condicionar a possibilidade de passagem da alma de um ser para outro a uma eventual compatibilidade reprodutiva. Como sabemos, as leis reprodutivas são bastante rígidas e esse tipo de condição derruiria qualquer possibilidade de a evolução das almas poder se dar via migração entre espécies. Veja:

“Seria verdadeira a metempsicose, se indicasse a progressão da alma, passando de um estado a outro superior, onde adquirisse desenvolvimentos que lhe transformassem a natureza. É, porém, falsa no sentido de transmigração direta da alma do animal para o homem e reciprocamente, o que implicaria a idéia de uma retrogradação, ou de fusão. Ora, o fato de não poder semelhante fusão operar-se, entre os seres corporais das duas espécies, mostra que estas são de graus inassimiláveis, devendo dar-se o mesmo com relação aos Espíritos que as animam. Se um mesmo Espírito as pudesse animar alternativamente, haveria, como conseqüência, uma identidade de natureza, traduzindo-se pela possibilidade da reprodução material.”

Não foi a toa que Allan Kardec disse que esse sistema levantava múltiplas questões; ele estava certo. Outro sistema que levanta questões bastante interessantes para serem desenvolvidas aqui é o proposto pelo Espírito André Luiz, no livro “Evolução em Dois Mundos, sistema que poderia se encaixar perfeitamente no que Kardec chamou de “opiniões pessoais mais ou menos sensatas”. Vamos analisá-lo nos próximos parágrafos, pois ele nos traz ótimos exemplos para passarmos pelo cadinho da razão.

O sistema de André Luiz se baseia no desenvolvimento contínuo da vida, nos dois planos, o espiritual e o físico, com a elaboração lenta dos automatismos que regem a vida, automatismos esses que seriam modelados por entidades as quais ele chamou de “arquitetos divinos”, “engenheiros siderais” e outros nomes similares. Selecionei quatro trechos do seu livro como ilustração:

1º trecho

“Os dias da Criação, assinaladas nos livros de Moisés, equivalem a épocas imensas no tempo e no espaço, porque o corpo espiritual que modela o corpo físico e o corpo físico que representa o corpo espiritual constituem a obra de séculos numerosos, pacientemente elaborada em duas esferas diferentes da vida, a se retomarem no berço e no túmulo com a orientação dos Instrutores Divinos que supervisionam a evolução terrestre.”

“Com semelhante enunciado não diligenciamos, de modo algum, explicar a gênese do espírito, porque isso, por enquanto, implicaria arrogante e pretensiosa definição do próprio Deus.”

“Propomo-nos simplesmente salientar que a lei da evolução prevalece para todos os seres do Universo, tanto quanto os princípios cosmocinéticos, que determinam o equilíbrio dos astros, são, na origem, os mesmos que regulam a vida orgânica, na estrutura e movimento dos átomos. O veículo do espírito, além do sepulcro, no plano extrafísico ou quando reconstituído no berço, é a soma de experiências infinitamente repetidas, avançando vagarosamente da obscuridade para a luz. Nele, situamos a individualidade espiritual, que se vale das vidas menores para afirmar-se, das vidas menores que lhe prestam serviço, dela recolhendo preciosa cooperação para crescerem a seu turno, conforme os inelutáveis objetivos do progresso.”

2º trecho

“Como se estruturaram os cromatídeos nos cromossomos é problema que, de todo, por enquanto, nos escapa ao sentido, mas sabemos que os Arquitetos Espirituais, entrosados à Supervisão Celeste, gastaram longos séculos preparando as células que serviriam de base ao reino vegetal, combinando nucleoprotemas a glúcides e a outros elementos primordiais, a fim de que se estabelecessem um nível seguro de forças constantes, entre a bagagem do núcleo e do citoplasma.”

“Com semelhante realização, o princípio inteligente começa a desenvolver-se do ponto de vista fisiopsicossomático.”

“Não apenas a forma física do futuro promete então revelar-se, mas também a forma espiritual.”

3º trecho

“Através dos estágios nascimento-experiência-morte-experiência-renascimento, nos planos físico e extrafísico, as crisálidas de consciência, dentro do princípio de repetição, respiram sob o sol como seres autótrofos no reino vegetal, onde as células, nas espécies variadas em que se aglutinam, se reproduzem de modo absolutamente semelhante.”

“Nesse domínio, o princípio inteligente, servindo-se da herança, e por intermédio das experiências infinitamente recapituladas, habilita-se à diferenciação nos flagelados, ascendendo progressivamente à diferenciação maior na escala animal, onde o corpo espiritual, à feição de protoforma humana, já oferece moldes mais complexos, diante das reações do sistema nervoso, eleito para sede dos instintos superiores, com a faculdade de arquivar reflexos condicionados.”

4º trecho

“DESCENDÊNCIA E SELEÇÃO — É justo lembrar, no entanto, que os trabalhos gradativos da descendência e da seleção, que encontrariam em Lamarck e Darwin expositores dos mais valiosos, operavam-se em dois planos.”

“As crisálidas de consciência dos reinos inferiores, mergulhadas em campo vibratório diferente pelo fenômeno da morte, justapunham-se às células renascentes que continuavam a servi-las, colhendo elementos de transmutação para a volta à esfera física, pela reencarnação compulsória, sob a orientação das Inteligências Sublimes que nos sustentam a romagem, circunstância que nos compele a considerar que o transformismo das espécies, como também a constituição de espécies novas, em se ajustando a funções fisiológicas, expansão e herança, baseiam-se no mecanismo e na química do núcleo e do citoplasma, em que as energias fisiopsicossomáticas se reúnem.”

As questões que esse sistema levanta são exemplares para nos dar uma ideia do quanto esse assunto é complexo. A primeira dessas questões é a que fala sobre a necessidade da existência de Espíritos no comando desse processo. Ora, se estamos lidando com o processo de geração de Espíritos a lógica nos diz que ele não deveria depender de Espíritos já existentes, pois se dependesse, como estes teriam sido gerados? No caso do sistema de André Luiz a presença das tais “Inteligências Sublimes” cairiam nesse caso, a não ser que se admita a hipótese de elas não serem, na realidade, Espíritos como nós. Na literatura de Kardec também podemos encontrar esse tipo de problema se associarmos a tese da evolução do princípio inteligente se dar via reencarnação, pulando de espécie em espécie animal até chegar ao homem, com a descrição que diz que as almas dos animais são classificadas e utilizadas, quase imediatamente, por Espíritos incumbidos dessa tarefa. É o velho dilema do ovo e da galinha que tem por única solução satisfatória o fato de nem um e nem outro terem surgido primeiro, mas de ambos terem surgido por um processo anterior e diferente. Particularmente, não vejo com bons olhos a necessidade de Espíritos tendo que coordenar os processos necessários para a geração de novos Espíritos, pois acredito que as leis naturais e divinas já dariam conta dessa tarefa.

Essa obra de André Luiz, psicografada pelas mãos de Chico Xavier e Waldo Vieira, surgiu pela necessidade de satisfação aos evolucionistas do séc. XX, na tentativa de conciliar as teses espirituais com a ciência terrena, isso num tempo onde a teoria da evolução das espécies já havia se consolidado como verdade científica, mas o sistema proposto por ela encerra em si algumas armadilhas e a análise dessas armadilhas pode servir de parâmetro para a análise de qualquer outro sistema que trate deste assunto.

A tese de a evolução dos automatismos gerarem seres vivos cada vez mais complexos é, por si só, bem lógica e condizente com as observações da ciência, mas a evolução biológica se comporta como uma árvore com tendência constante a diversificação, gerando ramificações, ou galhos, para todos os lados, sendo que muitos deles acabam sendo podados pela seleção natural e pelas catástrofes planetárias; como, pela tese de André Luiz, essas ramificações se reproduziriam nos dois mundos, gerando os corpos espirituais que se tornariam os modeladores dos novos corpos físicos, isto implicaria em dizer que os corpos espirituais de um galho evolutivo não estariam habilitados a animar seres vivos de outros galhos, pois não teriam os automatismos apropriados para moldar corpos diferentes dos seus e também não teriam os comportamentos instintivos apropriados e imprescindíveis à vida da outra espécie. Na realidade, apesar de muitos adeptos dos ensinamentos de André Luiz defenderem a tese da migração do princípio inteligente de espécie para espécie, galgando os degraus até alcançar o estágio humano, ele, em seu sistema, acabou indo direção oposta, praticamente engessando esse tipo de flexibilidade ao colocar dificuldades que só poderiam ser superadas por de intervenções em graus inimagináveis das tais “Inteligências Sublimes”.

Volto a dizer que a tese da evolução dos automatismos gerarem seres vivos cada vez mais complexos é bem lógica, mas se tomarmos a geração dos humanos e, consequentemente, a dos Espíritos humanos, como fruto de uma ramificação evolutiva única, como aparentemente é a possibilidade que o sistema de André Luiz melhor comporta, isso resolveria a questão dos automatismos necessários a construção dos corpos humanos, mas nos colocaria diante de um outro grande problema, que seria a questão da quantidade de Espíritos humanos que poderiam ser gerados por esse processo, tendo todos eles passado por todas as etapas evolutivas que lhes legariam ou automatismos humanos. Ora, se observarmos a árvore da evolução biológica veremos que os indivíduos que dão origem a um novo ramo evolutivo estão sempre em um número reduzido, mas para a evolução biológica, conforme as premissas da ciência terrena, isto não representa problema algum porque os seres vivos da base de um ramo se reproduzem e geram os novos indivíduos que farão o ramo crescer, no entanto, se formos analisar pelo lado espiritual e levarmos em conta que cada ser vivo possuiria em si um corpo espiritual (modelador do corpo físico), que mecanismos poderiam tê-los criado em número suficiente para dar conta ao crescimento do número de seres de uma nova espécie? Se pelo sistema de André Luiz encontrar uma explicação para isso é difícil, sem ter que apelar para eternos e improváveis malabarismos dos tais “Engenheiros Siderais”, essa explicação se tornaria fácil se liberássemos as almas da tarefa de modelagem dos corpos, deixando-a por conta das leis biológicas, e admitíssemos que os instintos associados a cada espécie possam também ser transmitidos hereditariamente, pelas leis conhecidas e por eventuais leis ainda desconhecidas, desta forma teríamos uma flexibilidade que permitiria que as almas de uma ramificação evolutiva pudessem migrar para animais de outros ramos evolutivos e, eventualmente, até mesmo chegar ao ramo evolutivo humano; com essa flexibilidade até mesmo almas de outros orbes poderiam vir a habitar os animais terrenos e os seres humanos, dando suporte ao que está escrito no O Livro dos Espíritos (607 b). Infelizmente a tese de o períspirito moldar o corpo físico virou quase um dogma dentro do movimento espírita, especialmente depois que Gabriel Delanne publicou o seu “A Evolução Anímica”, e a tese de que comportamentos possam ser passados hereditariamente também não costuma ser muito bem recebida dentro deste meio. Sobre esses assuntos eu disserto mais detalhadamente nos artigos “O perispírito molda o corpo físico?” e “Os instintos”, onde coloco razões para que o leitor possa avaliar essas questões mais profundamente.

Entender as almas como focos de consciência (ou princípios inteligentes) adaptáveis aos diversos organismos permite uma flexibilidade bem compatível com a dinâmica que observamos na vida material, dinâmica essa que extingue espécies de uma hora para a outra e que faz com que algumas possam, num dado momento, multiplicar os seus indivíduos de forma desproporcional (é o caso dos humanos, atualmente), mas esse sistema não explica como teriam surgido todos esses focos de consciência. Bem... como disse Kardec, “o ponto de partida do Espírito é uma dessas questões que se ligam ao princípio das coisas e estão nos segredos de Deus, não é dado ao homem conhecê-las de maneira absoluta, e ele só pode fazer, a seu respeito, meras suposições, construir sistemas mais ou menos prováveis”; essa mesma consideração poderia ser feita em relação aos focos de consciência, precursores dos Espíritos humanos e das almas dos animais.

Muito se recorre à justiça divina quando este assunto entra em pauta e é inevitável que, ao associarmos Deus ao bem supremo e à justiça, vislumbremos um fim comum e perfeito para todos os seres por Ele criado. Em nossa limitada visão esse fim comum e perfeito só poderia ser a transformação final de todas as criaturas em Espíritos puros, ou arcanjos. A partir dessa premissa muitos logo se apressam em dizer que todos os elementos espirituais que habitam animais, vegetais e até mesmo bactérias, um dia chegariam ao estágio de arcanjos. Uma vez, acreditem, cheguei a ouvir de uma pessoa, em um fórum espírita, que todas as pedras um dia também chegariam lá; certamente esta pessoa chegou a essa conclusão baseando-se em uma das diversas adaptações de um trecho do livro “Depois da Morte”, de Léon Denis, no qual ele escreve que o “sentimento da justiça absoluta diz-nos também que o animal, tanto quanto o homem, não deve viver e sofrer para o nada. Uma cadeia ascendente e continua liga todas as criações, o mineral ao vegetal, o vegetal ao animal, e este ao ente humano”. Todas essas teorias são muito bonitas e nos deixam com uma sensação leve, ao acreditarmos nelas, mas elas possuem em si alguns problemas de lógica matemática praticamente insolúveis. Ao rapaz que radicalizou dizendo que todas as pedras um dia se tornariam arcanjos, eu apenas lhe alertei que pensasse melhor e lhe disse que, se fosse assim, deveríamos construir mais pedreiras, pois elas, ao quebrarem as pedras, conseguiriam multiplicar, no futuro, a quantidade de arcanjos (uma ironia, é claro!); mas esse rapaz foi apenas uma exceção que encontrei e que só coloquei aqui para ilustrar até onde a imaginação humana consegue chegar para justificar as suas crenças; o mais comum é encontrarmos pessoas defendendo a tese de que todas as bactérias deveriam ter, por justiça divina, um fim angelical; para os que possuem essa crença eu apenas peço para que atentem para o fato de que dentro de cada um de nós e de cada animal de grande porte existem mais bactérias do que toda a população humana do planeta (segundo estimativas elas poderiam chegar a 100 trilhões somente em nossos intestinos) e que se um animal de grande porte fosse criado visando a evolução de uma dessas pequenas criaturas outro tanto de bactérias nasceriam dentro dele criando assim uma progressão geométrica impossível de ser satisfeita a não ser por bordões fáceis como os que dizem que o universo está em expansão, o que diz que Deus sabe o que faz e o que diz que somos muito limitados para entender os mistérios do mundo.

É muito difícil tratar esses assuntos que remexem nas nossas noções mais primárias de bem e justiça, mas temos que reconhecer que esses nossas noções talvez sejam muito limitadas diante da grandeza do universo. Se só conseguimos enxergar como destino justo para uma bactéria ela vir a ser tornar humana e, posteriormente, um Espírito puro, talvez seja porque damos valor demais às individualidades, sem levarmos em conta que fazer parte de um conjunto maior talvez seja a hipótese mais natural e justa dentro da criação divina. Temos nas nossas células um exemplo perfeito de abdicação da individualidade em prol de algo maior. Neste ponto, vale a pena refletirmos de novo sobre essa resposta dada na questão 604 do O Livro dos Espíritos, resposta que já coloquei no início do artigo, mas que vale a pena colocar novamente:

“tudo em a Natureza se encadeia por elos que ainda não podeis apreender. Assim, as coisas aparentemente mais díspares têm pontos de contacto que o homem, no seu estado atual, nunca chegará a compreender. Por um esforço da inteligência poderá entrevê-los; mas, somente quando essa inteligência estiver no máximo grau de desenvolvimento e liberta dos preconceitos do orgulho e da ignorância, logrará ver claro na obra de Deus. Até lá, suas muito restritas idéias lhe farão observar as coisas por um mesquinho e acanhado prisma. Sabei não ser possível que Deus se contradiga e que, na Natureza, tudo se harmoniza mediante leis gerais, que por nenhum de seus pontos deixam de corresponder à sublime sabedoria do Criador.”

A população humana no planeta, em 1800, girava em torno de um bilhão de pessoas, em 1950 esse número situava-se na casa dos 2, 5 bilhões e em 2000 já havíamos ultrapassado a casa dos 6 bilhões, e isso deixa no ar a seguinte pergunta: 0 mundo espiritual terreno possuía um estoque tão grande assim de Espíritos para dar conta dessa demanda repentina?

Se tinha, provavelmente era uma população milenar, o que poderia até justificar o fato de alguns Espíritos da codificação terem dito que desconheciam as suas origens, pois só viam Espíritos terrenos, iguais a eles, reencarnando por aqui; isso explicaria também a raridade de relatos consistentes de lembranças de outros orbes. E se tinha esse estoque de Espíritos, também caberia a pergunta: o mundo espiritual terreno está ficando deserto?

Se não tinha, possivelmente essa grande demanda fez ressurgir os mecanismos para a geração de novos Espíritos para atender aos humanos terrestres, seja pela importação de Espíritos humanos de outros orbes, seja pela promoção de almas animais (daqui ou de outros orbes) a Espíritos humanos, ou seja pela geração de novos Espíritos no momento da concepção. De uma forma ou de outra esse aumento populacional pode estar dando aos Espíritos a oportunidade de presenciar e pesquisar sobre isso, caberia a nós colocarmos para eles novamente essa questão para ver se adquiriram novos conhecimentos.

Para finalizar, gostaria de esclarecer que a citada “geração de novos Espíritos no momento da concepção” não foi retirada do nada. Kardec também a admitia, ao menos em grau de hipótese, como ele deixou explícito nesse trecho do “A Gênese” (grifo meu):

“29. - Quando a Terra se encontrou em condições climáticas apropriadas à existência da espécie humana, encarnaram nela Espíritos humanos. Donde vinham? Quer eles tenham sido criados naquele momento; quer tenham procedido, completamente formados, do espaço, de outros mundos, ou da própria Terra, a presença deles nesta, a partir de certa época, ê um fato, pois que antes deles só animais havia. Revestiram-se de corpos adequados às suas necessidades especiais, às suas aptidões, e que, fisionomicamente, tinham as características da animalidade. Sob a influência deles e por meio do exercício de suas faculdades, esses corpos se modificaram e aperfeiçoaram é o que a observação comprova. Deixemos então de lado a questão da origem, insolúvel por enquanto; consideremos o Espírito, não em seu ponto de partida, mas no momento em que, manifestando-se nele os primeiros germens do livre-arbítrio e do senso moral o vemos a desempenhar o seu papel humanitário, sem cogitarmos do meio onde haja transcorrido o período de sua infância, ou, se o preferirem, de sua incubação. Mau grado a analogia do seu envoltório com o dos animais, poderemos diferençá-lo destes últimos pelas faculdades intelectuais e morais que o caracterizam. como, debaixo das mesmas vestes grosseiras, distinguimos o rústico do homem civilizado.”

Como é de hábito neste blog, tentei abordar todas as hipóteses possíveis de forma a deixar o leitor municiado para formar as suas próprias opiniões. Espero que tenham gostado.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Os Instintos

Neste artigo falarei sobre os instintos naturais, tema que foi levemente abordado no artigo anterior, que trata sobre as almas e os Espíritos. Por coincidência, logo após a publicação do citado artigo, tive a oportunidade de travar um interessante debate em uma comunidade espírita no qual me deparei com várias argumentações que, apesar de serem baseadas na codificação espírita, sugeriam interpretações diversas e até mesmo opostas. Com este artigo pretendo apenas colocar de forma organizada as impressões que tenho sobre o assunto, trazendo elementos da codificação espírita para que o leitor tire as suas próprias conclusões.

Em primeiro lugar é necessário que se faça uma distinção entre as duas formas que Kardec se referiu aos instintos e para isso trago dois exemplos contidos no O Livro dos Espíritos.

Exemplo 1

605. Considerando-se todos os pontos de contacto que existem entre o homem e os animais, não seria lícito pensar que o homem possui duas almas: a alma animal e a alma espírita e que, se esta última não existisse, só como o bruto poderia ele viver? Por outra:que o animal é um ser semelhante ao homem, tendo de menos a alma espírita? Dessa maneira de ver resultaria serem os bons e os maus instintos do homem efeito da predominância de uma ou outra dessas almas?

“Não, o homem não tem duas almas. O corpo, porém, tem seus instintos, resultantes da sensação peculiar aos órgãos. Dupla, no homem, só é a Natureza. Há nele a natureza animal e a natureza espiritual. Participa, pelo seu corpo, da natureza dos animais e de seus instintos. Por sua alma, participa da dos Espíritos.”

Exemplo 2

845. Não constituem obstáculos ao exercício do livre-arbítrio as predisposições instintivas que o homem já traz consigo ao nascer?

“As predisposições instintivas são as do Espírito antes de encarnar. Conforme seja este mais ou menos adiantado, elas podem arrastá-las à prática de atos repreensíveis, no que será secundado pelos Espíritos que simpatizam com essas disposições. Não há, porém, arrastamento irresistível, uma vez que se tenha a vontade de resistir. Lembrai-vos de que querer é poder.”

No primeiro exemplo ele se refere aos instintos naturais (ou carnais), aqueles que influenciam o Espírito, quando este se encontra encarnado; no segundo ele se refere aos instintos do próprio Espírito, ou seja, a sua moral, as tendências comportamentais que o Espírito imortal adquiriu na sua história evolutiva. É importante atentar para essa diferença de significados; muitos debates acabam sendo prejudicados pela falta deste entendimento.

Os instintos dos Espíritos estão, de alguma forma, gravados neles mesmos e não serão objeto deste artigo, que pretende abordar apenas os instintos naturais (ou carnais).

Na questão 75 do O Livro dos Espíritos Kardec comenta que:

"O instinto é uma inteligência rudimentar, que difere da inteligência propriamente dita por serem quase sempre espontâneas as suas manifestações, enquanto as daquela são o resultado de apreciações e de uma deliberação.

O instinto varia em suas manifestações segundo as espécies e suas necessidades. Nos seres dotados de consciência e de percepção das coisas exteriores, ele se alia à inteligência, o que quer dizer, à vontade e à liberdade."

Em A Gênese (cap. III), Kardec tece algumas considerações bem interessantes sobre os instintos, considerações das quais eu destaco esse trecho:

“A uniformidade no que resulta das faculdades instintivas é um fato característico que forçosamente implica a unidade da causa. Se a causa fosse inerente a cada individualidade, haveria tantas variedades de instintos quantos fossem os indivíduos, desde a planta até o homem. Um efeito geral, uniforme e constante, há de ter uma causa geral, uniforme e constante; um efeito que atesta sabedoria e previdência há de ter uma causa sábia e previdente. Ora, uma causa dessa natureza, sendo por força inteligente, não pode ser exclusivamente material.

Não se nos deparando nas criaturas, encarnadas ou desencarnadas, as qualidades necessárias à produção de tal resultado, temos que subir mais alto, isto é, ao próprio Criador. Se nos reportamos à explicação dada sobre a maneira por que se pode conceber a ação providencial (cap. II, nº 24); se figurarmos todos os seres penetrados do fluido divino, soberanamente inteligente, compreenderemos a sabedoria previdente e a unidade de vistas que presidem a todos os movimentos instintivos que se efetuam para o bem de cada indivíduo. Tanto mais ativa é essa solicitude, quanto menos recursos tem o indivíduo em si mesmo e na sua inteligência. Por isso é que ela se mostra maior e mais absoluta nos animais e nos seres inferiores, do que no homem.

Segundo essa teoria, compreende-se que o instinto seja um guia seguro. O instinto materno, o mais nobre de todos, que o materialismo rebaixa ao nível das forças atrativas da matéria, fica realçado e enobrecido. Em razão das suas conseqüências, não devia ele ser entregue às eventualidades caprichosas da inteligência e do livre-arbítrio. Por intermédio da mãe, o próprio Deus vela pelas suas criaturas que nascem.”

A perfeita observação de Kardec quanto à uniformidade dos instintos dentro de uma mesma espécie animal e a sua perfeita conclusão quanto a essa característica ser um claro indício de os instintos não poderem ter como causa as individualidades e o livre-arbítrio são cruciais na avaliação dessa questão. Kardec, talvez por falta de opções mais palpáveis, subiu até Deus para buscar uma causa comum para tamanha uniformidade; ora, a lógica espírita nos diz que Deus age através das suas leis perfeitas e imutáveis, não necessitando atuar caso a caso; perante a essa lógica, quais seriam, então, as leis responsáveis pela uniformização dos instintos entre animais da mesma espécie e gênero? Na minha visão, as leis que melhor se encaixariam nesta função seriam as leis que regem as transmissões hereditárias, ou seja, as leis genéticas, que usam os nossos DNAs como forma de transmissão, e possivelmente por outras leis ainda desconhecidas da nossa ciência. Com a transmissão hereditária estaria satisfeita a premissa da uniformidade e, ao mesmo tempo, deixaria aberta a possibilidade para uma modelagem lenta e contínua dos instintos a ser promovida pelo processo de seleção natural, no qual os comportamentos mais favoráveis à reprodução e manutenção das espécies substituiriam pouco a pouco os menos favoráveis. É sempre bom lembrar que na época de Kardec a ciência ainda desconhecia o DNA e os códigos genéticos, o que não lhe permitia levantar hipóteses do tipo que levantamos hoje.

Toda vez que é levantada a possibilidade de que comportamentos possam estar escritos nas moléculas de DNA levantam-se também as vozes contrárias que afirmam que a matéria, sendo inerte, não poderia ser responsável por ditar comportamentos. Em minha opinião essa é uma analogia imperfeita; seria o mesmo que dizer que pelo fato de a folha de papel e a grafite serem matéria elas não teriam o poder de transmitir as emoções de uma poesia ou ainda a de transmitir as ordens claras dos memorandos. O universo tem os seus métodos para armazenar e transmitir informações, métodos esses que não são do mundo da matéria, são do mundo do espírito (princípio inteligente do universo – não individualizado); não seria de forma alguma absurda a hipótese de esses métodos se utilizarem da matéria bruta como meio de gravação e reprodução das instruções que regem os seres vivos ou ainda, através de uma matéria mais tênue, até mesmo das instruções que regem as individualidades espirituais. No artigo “As almas e os Espíritos” há uma melhor abordagem sobre essa questão.

Outra característica observável dos instintos é o fato de serem bem mais visíveis nos animais do que nos homens. De fato, quanto menos complexos são os animais mais previsíveis são os seus comportamentos, com machos e fêmeas seguindo rituais instintivos exatos visando a sobrevivência e reprodução, mesmo estes os enviando para uma morte prematura, como acontece com os machos de algumas espécies durante o acasalamento. Foi só a partir do desenvolvimento da inteligência que os instintos passaram, ainda que de forma bem tênue, a dar algum espaço ao raciocínio, mas nada que arranhasse o seu predomínio na condução de tudo que conhecemos por vida. Foi somente no homem, com a inteligência já bem desenvolvida, que os instintos passaram a sofrer mais seriamente o crivo da razão, da falível razão. Sobre esse assunto, temos no O Livro dos Espíritos:

75. É acertado dizer que as faculdades instintivas diminuem, à medida que crescem as intelectuais?

– Não. O instinto existe sempre, mas o homem o negligencia. O instinto pode também conduzir ao bem; ele nos guia quase sempre, e às vezes mais seguramente que a razão; ele nunca se engana.

Existe um enorme fosso entre nós e o mais inteligente dos animais, e um dos diferenciais mais evidentes que temos em relação a eles é o de sermos os únicos a agir voluntariamente contra os nossos instintos naturais, seja por opção própria ou por indução de agentes sociais, como a cultura e as religiões. No homem também age por força das experiências acumuladas em suas diversas existências, das quais emergem os mais sutis gostos e preferências. Os humanos são seres complexos. Ficamos imersos nos instintos naturais, inclusive os sexuais, provenientes do gênero no qual encarnamos, ficamos imersos nos instintos espirituais (ou morais) e ficamos imersos em nossos pensamentos, através dos quais julgamos e analisamos os nossos atos continuamente. É complicado ser humano.

Para finalizar o artigo deixo a vocês essas palavras de Kardec sobre os instintos, onde ele deixa transparecer mais uma vez o seu refinado bom-senso:

A Gênese (Cap. III)

17. - Todas essas maneiras de considerar o instinto são forçosamente hipotéticas e nenhuma apresenta caráter seguro de autenticidade, para ser tida como solução definitiva. A questão, sem dúvida, será resolvida um dia, quando se houverem reunido os elementos de observação que ainda faltam. Até lá, temos que limitar-nos a submeter as diversas opiniões ao cadinho da razão e da lógica e esperar que a luz se faça. A solução que mais se aproxima da verdade será decerto a que melhor condiga com os atributos de Deus, isto é, com a bondade suprema e a suprema justiça.

sábado, 22 de janeiro de 2011

As almas e os Espíritos

O meu último artigo, que fala sobre os Espíritos e as leis físicas, gerou alguns comentários em relação à forma que utilizei as palavras “Espírito” e “alma”. Alguns deles separavam o Espírito do perispírito e diziam, com possível razão, que este não poderia sofrer a influência das leis físicas, deixando em aberto a possibilidade de apenas o perispírito sofrer essa influência; outros comentários alegavam que a palavra alma só poderia ser utilizada em relação aos Espíritos encarnados, como descrito por Kardec na questão 134 do O Livro dos Espíritos, e não da forma como usei. Fato é que no artigo mencionado usei as palavras “alma” e “Espírito” explicando a forma pela qual as entendia; fato é, também, que esses comentários me evidenciaram a necessidade de um aprofundamento neste assunto e me levaram à construção deste novo artigo.

Em primeiro lugar, para evitar novos mal entendidos, faz-se necessário a delimitação exata do que eu entendo por alma e Espírito, e para me auxiliar trarei um trecho do livro O Que é o Espiritismo que corresponde exatamente à minha opinião:

“14 - A união da alma, do perispírito e do corpo material constitui o homem; a alma e o perispírito separados do corpo constituem o ser chamado Espírito.

Nota - A alma é, assim, um ser simples; o Espírito um ser duplo e o homem um ser triplo. Seria, pois, mais exato reservar a palavra alma para designar o princípio inteligente, e a palavra Espírito para o ser semimaterial formado desse princípio e do corpo fluídico. Mas, como não se pode conceber o princípio inteligente isolado de toda matéria, nem o perispírito sem estar animado pelo princípio inteligente, as palavras alma e Espírito são, usualmente, empregadas indiferentemente uma pela outra; é a aparência que consiste pelo todo, da mesma forma que se diz de uma vila que ela é povoada por tantas em tomar a parte almas, um povoado de tantas casas; mas, filosoficamente, é essencial diferenciá-las.”

É exatamente assim que vejo a palavra “alma”, como um núcleo pensante, o princípio inteligente de um ser chamado Espírito, um ser duplo formado por esse núcleo pensante e revestido por um perispírito. Quando Kardec se refere à alma como o Espírito encarnado ele também se refere a esse núcleo pensante, só que desta vez revestido pela união do perispírito com o corpo físico. A palavra “Espírito” é usada na codificação espírita ora para designar o núcleo pensante (alma), ora para designar o ser duplo formado pela alma e o perispírito, e ora para designar o Princípio Inteligente do Universo (PIU), daí a origem de tantas confusões. Sem entrar na polêmica das palavras, me limito a informar o entendimento que elas devem assumir em meus artigos.

Mas, afinal de contas, o que seria a alma? O que seria esse princípio inteligente que anima o Espírito? De que ela seria feita? Qual seria a sua origem? Quais propriedades possuiriam? Bem... sem a mínima pretensão de encontrar a resolução completa para esses mistérios, me proponho a simplesmente buscar alguns rastros e pistas que, como uma bússola, possam nos mostrar ao menos a direção em que elas poderiam se encontrar. A bem da verdade, os próprios Espíritos da codificação ainda estudavam a natureza da alma na época em que Kardec construía a codificação. Lamennais nos confidencia a existência desse estudo em sua dissertação sobre o perispírito, no Livro dos Médiuns, onde diz: “...Supondes que,como vós, também eu não perquiro? Vós pesquisais o perispírito; nós outros, agora, pesquisamos a alma. Esperai, pois." Neste mesmo trecho do Livro dos Médiuns (Cap. IV, 51) este nobre Espírito nos alerta para primeiro tentarmos compreender estas questões moralmente e para não tentarmos ir mais longe que isso, visto que seriam pontos ainda inexplicáveis. Kardec, logo a seguir, também nos alerta que “pretender esquadrinhar, com o auxílio do Espiritismo, o que escapa à alçada da humanidade, é desviá-lo do seu verdadeiro objetivo”. Foram palavras sábias, tanto as de Lamennais quanto às de Kardec, e que servem de alerta aos espíritas mais afoitos, mas que não devem represar a força da filosofia em sua busca pelos porquês do mundo. O Espiritismo não pode se perder neste labirinto sem saída que, obviamente, não faz parte dos seus nobres propósitos, mas a filosofia pode, pois sua função primordial é formular hipóteses para tentar enxergar o que ainda não pode ser vislumbrado pelo senso comum ou pela ciência. Este blog pensa sobre Espiritismo, como diz o seu próprio nome, mas ele é, acima de tudo, um blog livre-pensador e filosófico, e por este motivo não se furtará em se embrenhar neste tema tão espinhoso.

É importante que se diga que nós, encarnados, provavelmente jamais saberemos como e por que os Espíritos foram criados, e a lógica nos diz que nem mesmo eles, os Espíritos, o saberão um dia. E por que digo isso? Simplesmente porque para se conseguir enxergar um processo como um todo, com todas as variáveis envolvidas nele, é necessária uma visão com amplitude geral que não é possível de se obter estando dentro dele; como os Espíritos são produtos de um processo, por esta premissa eles jamais conseguirão enxergá-lo como um todo. Mas se nem eles e nem nós conseguiremos enxergar um dia a totalidade desse processo que, como diz a doutrina, pertence aos desígnios de Deus, podemos ao menos verificar algumas características comuns que podem nos fornecer algumas pistas sobre o funcionamento da alma. Os médicos não estão nem perto de entender os porquês e a totalidade dos processos que geram a vida material, mas isso não os impedem de verificar boa parte do funcionamento do corpo humano.

Fazendo uma busca nos livros da codificação encontramos algumas informações muito interessantes, que serão listadas abaixo, com as respectivas referências.

O Livro dos Espíritos:

- Diz que os Espíritos são individualizações do princípio inteligente, como os corpos são individualizações do princípio material (questão 79)

- Diz que os Espíritos são feitos de matéria quintessenciada, que de tão eterizada não pode ser percebida pelos sentidos dos encarnados (questão 82)

- Diz que, em relação à forma, os Espíritos parecem como uma flama, ou um clarão, ou uma centelha etérea, que variam do escuro ao brilho do rubi, de acordo com a sua menor ou maior pureza. (questão 88 e 88 a)

- Diz que os Espíritos se irradiam e que essa força de irradiação depende do grau de pureza de cada um. (questão 92 e 92a)

- Diz que os Espíritos são envolvidos por uma substância que se para nós, encarnados, parece vaporosa, para eles parece ainda bastante grosseira; ela seria suficientemente vaporosa, entretanto, para permitir que os Espíritos possam elevar-se na atmosfera e transportar-se para onde quiser. (questão 93)

Em todas essas questões a palavra “Espírito” se refere ao ser simples, a alma citada no trecho acima do “O Que é o Espiritismo”; podemos confirmar isso pelo seguinte trecho do ”O Livro dos Médiuns” em que Kardec diz:

55. Hão dito que o Espírito é uma chama, uma centelha. Isto se deve entender com relação ao Espírito propriamente dito, como princípio intelectual e moral, a que se não poderia atribuir forma determinada. Mas, qualquer que seja o grau em que se encontre, o Espírito está sempre revestido de um envoltório, ou perispírito, cuja natureza se eteriza, à medida que ele se depura e eleva na hierarquia espiritual. De sorte que, para nós, a idéia de forma é inseparável da de Espírito e não concebemos uma sem a outra. O perispírito faz, portanto, parte integrante do Espírito, como o corpo o faz do homem. Porém, o perispírito, só por só, não é o Espírito, do mesmo modo que só o corpo não constitui o homem, porquanto o perispírito não pensa. Ele é para o Espírito o que o corpo é para o homem: o agente ou instrumento de sua ação.

Como vemos, segundo o Espiritismo as almas seriam individualizações do princípio inteligente do universo, mas como teria se dado esse processo de individualização? Teria se dado de forma instantânea, com as almas humanas sendo criadas completas e perfeitas para só posteriormente serem inseridas em corpos humanos? Ou teriam as almas humanas sido fruto de um longo processo evolutivo onde foram adquirindo o seu aprendizado paulatinamente?

Embora sedutora para os homens, pelo sentimento de perfeição intrínseca que ela nos dá, a teoria de as almas humanas terem sido criadas por Deus já perfeitas e completas para só depois entrarem em um ciclo de reencarnações com o objetivo de se depurarem, como se fossem diamantes brutos sendo polidos para mostrarem o seu verdadeiro brilho, essa versão não é a mais apropriada para demonstrar o que nos ensina o Espiritismo. Apesar de nele nem os Espíritos e nem Kardec terem se aventurado a tentar desvendar o misterioso processo de criação das almas humanas, incluindo-o no rol dos mistérios que pertencem a Deus, podemos encontrar em suas linhas indícios claros que nos dizem que as almas humanas teriam sido frutos de uma longa construção evolutiva. Exemplos desses indícios nós encontramos, por exemplo, nas seguintes questões do O Livro dos Espíritos:

Trecho da questão 540:

...E assim que tudo serve, tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, pois ele mesmo começou pelo átomo.

607-a. Parece, assim, que a alma teria sido o princípio inteligente dos seres inferiores da criação?

– Não dissemos que tudo se encadeia na Natureza e tende à unidade?

É nesses seres, que estais longe de conhecer inteiramente, que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco, e ensaia para a vida, como dissemos. E, de certa maneira, um trabalho preparatório, como o da germinação, em seguida ao qual o princípio inteligente sofre uma transformação e se torna Espírito.

Essa elaboração, individualização, ensaio e transformação tem sido objeto para a criação de muitos sistemas por parte dos espíritas, que entendem essas palavras cada um ao seu modo; e certamente esse assunto também se tornará objeto para um futuro artigo neste blog, onde dedicaremos um olhar mais aguçado em direção aos princípios inteligentes e aos caminhos que eles possam ter percorrido até se transformarem em almas humanas. Neste artigo analisaremos essa questão de forma econômica.

É inegável que as almas humanas possuem características próprias que as distinguem das demais formas de vida; que possuem padrões de comportamento específicos e capacidades que lhes são comuns. Fazendo uma analogia com a evolução da vida material poderíamos dizer que somos fruto de uma ramificação evolutiva onde o pensamento aguçado e a consciência se firmaram como os seus principais diferenciais. Também é inegável que para que uma individualidade possa se manter e evoluir ela deverá possuir mecanismos que consigam armazenar os seus padrões de comportamentos e experiências (memória). Esses tipos de armazenamentos seriam inerentes a qualquer forma de vida, pois sem eles não seriam possíveis sequer as individualizações, visto que elas se tornariam tão volúveis e instáveis em sua fase embrionária que não conseguiriam criar um algo que conseguisse se tornar auto-sustentável e duradouro. Digamos que esta seria a primeira grande exigência da divina seleção natural.

Temos aqui a primeira grande característica das almas: o armazenamento de informações comportamentais e de memória. Mas as informações armazenadas, por si só, não fazem uma alma, isto porque as informações são basicamente estáticas, enquanto que as almas são dinâmicas; utilizam as informações para agirem, mas sem se confundirem com elas. Então, pelo que podemos ver, além das informações armazenadas na alma existe um núcleo que às gerencia organizando, reorganizando, escolhendo, assimilando novas informações e agindo. Opa! Então seria esse núcleo a verdadeira alma? Calma... as coisas não são tão simples assim. Esse núcleo gerenciador, a meu ver, seria algo bem menos complexo do que uma alma, pois ainda não possuiria as diversas camadas de informações sobrepostas que constituem as almas humanas ou qualquer outro eventual tipo de alma, em compensação ele teria a capacidade única de conseguir captar uma energia vinda diretamente do que se convencionou chamar de princípio vital. Bem... Kardec nunca usou em suas obras o termo “energia” com o sentido que o entendemos hoje; em sua época usava-se bastante o termo “fluido” para denominar o que hoje visualizamos como “energia” e foi com esse termo que os Espíritos explicaram o princípio vital, na questão 65 do O Livro dos Espíritos, dizendo que este seria um “fluido magnético ou fluido elétrico animalizado” e que seria também um intermediário, “um liame entre o espírito e a matéria” (a palavra “espírito”, nesse caso, se refere ao Princípio Inteligente do Universo (PIU), um dos elementos gerais do universo que junto com a matéria e Deus formariam a verdadeira trindade universal); num esforço de imaginação poderíamos dizer que ele seria uma espécie de “energia inteligente” que tiraria da matéria a sua porção energética e do espírito a sua porção inteligente.

Se a simples observação nos revela que as informações por si só são estáticas e inertes, ela nos revela também que energia difusa e descontrolada não consegue gerar os efeitos inteligentes e reproduzíveis necessários à existência da vida. Ambas, informação e energia, se completaram e se completam no árduo trabalho de elaborar e desenvolver o que conhecemos por vida; sem elas não estaríamos aqui buscando as nossas origens através da filosofia, com o auxílio do Espiritismo.

A impressão que temos, neste planeta carregado das mais variadas e resistentes espécies de vida, é que o universo constantemente conspira para criar a vida e talvez seja essa a mais pura verdade. Os Espíritos nos disseram que todos os orbes são habitados e é possível que sejam mesmo, talvez não por complexas formas de vida, mas sim por vidas simples que guardam poucas informações e se reproduzem. Certamente essa obstinação pela vida possui um intento, que talvez seja até o de fazer o universo (composto por espírito (PIU) e matéria, regidos por Deus) se sentir, se emocionar e, através de mentes mais desenvolvidas como as dos humanos, iniciar o seu autoconhecimento. É impossível solucionar esse mistério sem imputarmos todo esse mecanismo universal à vontade divina, porém mesmo quando nos referimos à vontade, seja ela qual for, podemos analisá-la correlacionando-a com uma força direcionada que é composta de energia (força) e informação (direção).

Deixando as divagações de lado e voltando a questão das almas, que também é uma divagação, mas mais palpável, tudo indica que elas foram se elaborando a partir de pontos inteligentes ou “centelhas anímicas” que foram pouco a pouco incorporando instruções à sua bagagem e se consolidando como individualidades. Em sua fase inicial essas centelhas sequer poderiam ser chamadas de almas; pois seriam apenas o que os espíritas chamam de princípio inteligente (PI), aquele que se elabora, individualiza pouco a pouco, ensaia para a vida para, após uma transformação, se tornar Espírito, conforme dito na questão 607-a do O Livro dos Espíritos. Por elaboração podemos entender, nesse caso, como o acúmulo de informações, sejam de instruções comportamentais ou de simples dados de memória.

Bem, aqui chegamos a alguns pontos importantes e polêmicos que não poderiam deixar de ser tratados neste artigo: o primeiro ponto diz respeito ao armazenamento de informações necessitar ou não de um meio material, mesmo que matéria quintessenciada, para se estabilizar e se manter; o segundo diz respeito às propriedades de transporte e replicação que essas informações poderiam possuir; e o terceiro, que tem alguma correlação com o segundo, diz respeito à necessidade ou não de ser usado o expediente da “reencarnação” durante o processo de elaboração dos PIs. Sobre o primeiro ponto trago a questão 82 do O Livro dos Espíritos por completo:

82. É certo dizer que os Espíritos são imateriais?

– Como podemos definir uma coisa, quando não dispomos de termos de comparação e usamos uma linguagem insuficiente? Um cego de nascença pode definir a luz? Imaterial não é o termo apropriado; incorpóreo, seria mais exato; pois deves compreender que, sendo uma criação, o Espírito deve ser alguma coisa. É uma matéria quintessenciada, para a qual não dispondes de analogia, e tão eterizada, que não pode ser percebida pelos vossos sentidos.

(Comentário de Kardec) Dizemos que os Espíritos são imateriais porque a sua essência difere de tudo o que conhecemos pelo nome de matéria. Um povo de cegos não teria palavras para exprimir a luz e os seus efeitos. O cego de nascença julga ter todas as percepções pelo ouvido, o olfato, o paladar e o tato; não compreende as idéias que lhe seriam dadas pelo sentido que lhe falta. Da mesma maneira, no tocante à essência dos seres super-humanos, somos como verdadeiros cegos. Não podemos defini-los, a não ser por meio de comparações sempre imperfeitas, ou por um esforço da imaginação.

Não é fácil detectar, na codificação, quando a palavra Espírito se refere ao ser simples, formado por um núcleo pensante, ou quando se refere ao ser duplo, composto por um núcleo pensante revestido por perispírito. A tradução de Herculano Pires ainda traz notas esclarecendo a sua interpretação sobre essa questão em alguns pontos, o que já não acontece na tradução de Guillon Ribeiro que, aliás, ainda possui outros problemas como, por exemplo, o da grafia da palavra “espírito” com “E” maiúsculo quando ela se refere ao Princípio Inteligente do Universo (PIU), gerando confusões entre esse elemento geral do universo (não individualizado) e as individualidades extracorpóreas (essas sim devem ser escritas com “E” maiúsculo, sejam elas com ou sem perispíritos). No caso da questão 82 Herculano adicionou uma nota dizendo que ela se referia ao ser duplo, justificando isso pela leitura da questão 79 que, segundo ele, deixaria a entender que o Espírito, sem o perispírito, nada teria de material.

79. Uma vez que há dois elementos gerais do Universo: o inteligente e o material, poderíamos dizer que os Espíritos são formado do elemento inteligente, como os corpos inertes são formados do material?

– É evidente. Os Espíritos são individualizações do princípio inteligente, como os corpos são individualizações do princípio material; a época e a maneira dessa formação é que desconhecemos.

Não vou questionar a interpretação de Herculano, que pode até ser válida, apesar de a questão 82 estar próximo a outras onde o próprio tradutor reconhece que essa palavra se refere ao ser simples; vou apenas tomar emprestado, como ilustração, um trecho da resposta dos Espíritos que creio ser bastante significativo; é o que diz: “Imaterial não é o termo apropriado; incorpóreo, seria mais exato; pois deves compreender que, sendo uma criação, o Espírito deve ser alguma coisa.”

Na questão 88 e 88-a, que Herculano anota como se referindo aos Espíritos puros, desprovidos de perispírito, temos:

88. Os Espíritos têm uma forma determinada, limitada e constante?

– Aos vossos olhos, não; aos nossos, sim. Eles são, se o quiserdes, uma flama, um clarão ou uma centelha etérea.

88-a. Esta f lama ou centelha tem alguma cor?

– Para vós, ela varia do escuro ao brilho do rubi, de acordo com a menor ou maior pureza do Espírito.

Ora... essa flama ou centelha é uma criação, é alguma coisa e, pelo que está exposto, uma coisa que possui propriedades rígidas que correlacionam a sua cor com a sua pureza. É claro que não podemos tomar ao pé-da-letra as comparações feitas com as nossas cores, até porque desconhecemos como funcionam os efeitos luminosos no mundo espiritual e qual seria a forma de captação destes pelos Espíritos, mas ainda assim não podemos desprezar o aspecto mais importante desta revelação: o de haverem correlações rígidas entre o estado do núcleo pensante, ou alma, e a sua aparência. Não posso falar mais do que isso sem entrar no terreno das grandes incertezas, mas sempre me reconforto por saber que esse terreno também já foi pisado pelo nosso nobre Kardec. O que eu visualizo, hoje, é que essa alteração de cores, que seria proporcional à pureza do Espírito, se dê, de alguma forma, em função da qualidade da matéria quintessenciada que o forma, e que guarda as informações fundamentais que fixam a sua individualidade, e pela ativação desta matéria através do “metabolismo” das almas durante o processo de absorção da energia do princípio vital. Kardec também desconhecia as exatas correlações entre a matéria e o Princípio Inteligente. Ele nos dá uma idéia disso na questão 28 do O Livro dos Espíritos, abaixo, onde é explicado o espírito, que é o Princípio Inteligente do Universo (PIU). Relembrando: os núcleos pensantes, ou almas, seriam individualizações desse elemento geral do universo.

28. Sendo o espírito, em si mesmo, alguma coisa, não seria mais exato, e menos sujeito a confusões, designar esses dois elementos gerais pelas expressões: matéria inerte e matéria inteligente?

– As palavras pouco nos importam. Cabe a vós formular a vossa linguagem, de maneira a vos entenderdes. Vossas disputas provêm, quase sempre, de não vos entenderdes sobre as palavras. Porque a vossa linguagem é incompleta para as coisas que não vos tocam os sentidos.

(comentário de Kardec) Um fato patente domina todas as hipóteses: vemos matéria sem inteligência e um princípio inteligente independente da matéria. A origem e a conexão dessas duas coisas nos são desconhecidas. Que elas tenham ou não uma fonte comum e os pontos de contato necessários; que a inteligência tenha existência própria, ou que seja uma propriedade, um efeito; que seja, mesmo, segundo a opinião de alguns, uma emanação da Divindade, – é o que ignoramos. Elas nos aparecem distintas, e é por isso que as consideramos formando dois princípios constituintes do Universo.

Podemos acrescentar ainda, a essa incerteza de Kardec, o fato de que Lammenais reconheceu, como está no início do artigo, que eles mesmos, os Espíritos, ainda não entendiam os segredos das almas; isso só para dar uma idéia de como esse assunto ainda está no campo das incertezas que só podem ser arranhadas com o auxílio da filosofia.

Sobre as possibilidades de transporte e replicação das informações que compõem a vida, temos um exemplo bem clássico nas facilmente observáveis transmissões de informações hereditárias, sejam elas efetuadas através dos códigos genéticos ou sejam por qualquer outra forma de transmissão que ainda não tenha sido descoberta. A ciência ainda não entende totalmente como esse processo funciona e se limita a tentar rastrear os efeitos dos genes do que de procurar as causas daquela mirabolante engenharia, o que é até compreensível, visto que ela se perderia num labirinto sem fim e desperdiçaria o tempo e a energia que hoje são gastos exclusivamente para criar métodos de cura e de melhoria de vida; este seria aquele mesmo labirinto sem fim que Kardec nos alertou para que o Espiritismo não entrasse, no intuito de tentar desvendar as origens das almas, para que ele não se desviasse de sua verdadeira função. O que fica, para nosso artigo, é expor o quanto é inegável o fato de que no processo de reprodução da vida milhões de informações são transferidas e replicadas. E se existe uma forma de a nossa matéria guardar informações, transferi-las e replicá-las, por que a matéria quintessenciada não poderia fazê-lo a nível espiritual?

Quanto à elaboração que foi necessária para gerar os Espíritos, na minha visão ela ocorreu de forma simultânea à evolução da vida material; com novos comando e informações sendo gerados e gravados em matéria bruta e em matéria quintessenciada, sendo repassados pelos processos naturais de transferência hereditária e sendo selecionados pela divina seleção natural; num processo longo que culminou no surgimento dos corpos humanos e das almas humanas. Foi em algum ponto desse processo elaborativo que os princípios inteligentes se tornaram Espíritos.

Como dizem, a natureza não dá saltos, e, olhando a cronologia da vida na Terra, podemos dizer que ela não dá mesmo. Dos pouco mais de três bilhões e meio de anos nos quais a vida se desenvolveu neste planeta, aproximadamente três bilhões deles foram dedicados a gerar seres unicelulares, só depois, e aos poucos, é que esses seres unicelulares passaram a se agrupar e a dividir funções entre os seus membros numa prática aparentemente vantajosa, visto que de lá para cá ela nunca deixou de evoluir. As convenções desses condomínios de seres unicelulares passaram a reger as suas vidas e a se transmitir adiante, via reprodução, e os prédios tornaram-se as individualidades a serem consideradas, não mais os apartamentos, apesar de estes ainda terem voz e influenciarem continuamente a individualidade central, indicando a ela as suas necessidades.

A codificação faz uma diferenciação entre vida orgânica e vida inteligente, e ela está bem descrita na questão 71 do O Livro dos Espíritos, que fala sobre a inteligência:

71. A inteligência é um atributo do princípio vital?

– Não; pois as plantas vivem e não pensam, não tendo mais do que vida orgânica. A inteligência e a matéria são independentes, pois um corpo pode viver sem inteligência, mas a inteligência só pode manifestar-se por meio dos órgãos materiais: somente a união com o espírito dá inteligência à matéria animalizada.

(comentário de Kardec) A inteligência é uma faculdade especial, própria de certas classes de seres orgânicos, aos quais dá, com o pensamento, a vontade de agir, a consciência de sua existência e de sua individualidade, assim como os meios de estabelecer relações com o mundo exterior e de prover as suas necessidades.

Podemos fazer a seguinte distinção: 1.º) os seres inanimados, formados somente de matéria, sem vitalidade nem inteligência: são os corpos brutos; 2.º) os seres animados não-pensantes, formados de matéria e dotados de vitalidade, mas desprovidos de inteligência; 3.º) os seres animados pensantes, formados de matéria, dotados de vitalidade, e tendo ainda um princípio inteligente que lhes dá a faculdade de pensar.

Tomemos a palavra “espírito” aqui como o Princípio Inteligente do Universo, fonte da inteligência, como reforça a questão 72:

72. Qual é a fonte da inteligência?

– Já o dissemos; a inteligência universal.

Alguns tomam o início do desenvolvimento das almas como o ponto no qual a inteligência se tornou mais pronunciada, ou seja, quando ela passou a gerar os primeiros pensamentos concatenados, mas se quisermos realmente devassar as origens das almas teremos que retroceder aos processos que formaram os corpos dos seres vivos, corpos esses que possibilitaram a manifestação da inteligência; primeiro a de uma inteligência instintiva e depois a de uma inteligência moral, surgida a partir da elaboração da capacidade de pensar.

Na questão 605 do O Livro dos Espíritos temos:

605. Se considerarmos todos os pontos de contato existentes entre o homem e os animais, não poderíamos pensar que o homem possui duas almas: a alma animal e a alma espírita; e que, se ele não tivesse esta última, poderia viver, mas como os animais?

Dizendo de outra maneira: o animal é um ser semelhante ao homem, menos a alma espírita? Disso resultaria que os bons e os maus instintos do homem seriam o efeito da predominância de uma ou de outra dessas duas almas?

– Não, o homem não tem duas almas, mas o corpo tem os seus instintos, que resultam da sensação dos órgãos. Não há no homem senão uma dupla natureza: a natureza animal e a espiritual. Pelo seu corpo, ele participa da natureza dos animais e dos seus instintos; pela sua alma, participa da natureza dos Espíritos.

Esta questão nos indica que os instintos teriam origem nos corpos e que eles influenciariam os Espíritos encarnados. Em nada me surpreende essa informação visto que tudo indica, na minha opinião, baseada em diversas observações, que eles, os instintos, seriam informações comportamentais transferidas pelos mecanismos hereditários, ou seja, pela carne. Um bom exemplo disto podemos encontrar nas seleções reprodutivas efetuadas pelos homens e que geraram as diversas raças de cachorros. Nelas não foram apenas as aparências que se diferenciaram ao extremo, os seus comportamentos também se diferenciaram, e muito.

Antes de surgir a “alma espírita” houve um longo processo para o desenvolvimento da “alma animal”, uma alma simples voltada para a satisfação das necessidades da vida material e que, por ter essa função tão específica, entra em letargia ao perder, por evento da morte, a sua mola propulsora que é o corpo físico. O homem, por sua capacidade de pensar muito além das necessidades do corpo material, mantém a sua “alma espírita” ativa após a sua libertação do corpo físico. Essa capacidade de pensar para além das necessidades do corpo faz toda a diferença entre os homens e os animais no mundo após a morte. Seria ela a responsável por transformar princípios inteligentes em Espíritos, como diz a questão 607-a, isso tanto aqui na Terra como em qualquer outro orbe gerador de Espíritos. Quando dizemos que Deus não para de criar Espíritos é porque os mecanismos que ele criou jamais deixaram de dar os seus frutos. Se supormos, como querem alguns, que haja a necessidade da intervenção de inteligências individualizadas no processo de geração espiritual, cairemos em um circuito temporal ilógico, a não ser que admitamos a existência de entidades espirituais que não tenham passado pelo crivo da evolução.

Os diversos sistemas criados para tentar explicar as almas humanas não são comprováveis e todos eles não conseguem sair do campo das hipóteses mais ou menos plausíveis. É bem verdade que está escrito, no O Livro dos Espíritos (questão 607-b) que as primeiras encarnações dos Espíritos humanos não se dariam na Terra, mas é bem verdade também que a hipótese de elas poderem se dar neste planeta é admitida, na mesma questão, a título de exceção; uma exceção que talvez tenha virado regra diante da explosão populacional do último século e da total falta de evidências confiáveis sobre a chegada de Espíritos de outros lugares por aqui.

Espero ter dado uma boa contribuição aos que gostam de filosofar sobre esse assunto. Não creio que especular sobre as almas fira as bases do Espiritismo. Kardec nos dá um exemplo de tolerância filosófica quando nos explica o Sistema da Alma Material, no Livro dos Médiuns. Deixo essa instrutiva leitura para finalizar o artigo, porém alertando, para evitar mal entendidos, que as minhas especulações não se confundem com este sistema.

50. Sistema da alma material. - Consiste apenas numa opinião particular sobre a natureza íntima da alma. Segundo esta opinião, a alma e o perispírito não seriam distintos uma do outro, ou, melhor, o perispírito seria a própria alma, a se depurar gradualmente por meio de transmigrações diversas, como o álcool se depura por meio de diversas destilações, ao passo que a Doutrina Espírita considera o perispírito simplesmente como o envoltório fluídico da alma, ou do Espírito. Sendo matéria o perispírito, se bem que muito etérea, a alma seria de uma natureza material mais ou menos essencial, de acordo com o grau da sua purificação.

Este sistema não infirma qualquer dos princípios fundamentais da Doutrina Espírita, pois que nada altera com relação ao destino da alma; as condições de sua felicidade futura são as mesmas; formando a alma e o perispírito um todo, sob a denominação de Espírito, como o gérmen e o perisperma o formam sob a de fruto, toda a questão se reduz a considerar homogêneo o todo, em vez de considerá-lo formado de duas partes distintas.

Como se vê, isto não leva a conseqüência alguma e de tal opinião não houvéramos falado, se não soubéssemos de pessoas inclinadas a ver uma nova escola no que não é, em definitivo, mais do que simples interpretação de palavras. Semelhante opinião, restrita, aliás, mesmo que se achasse mais generalizada, não constituiria uma cisão entre os espíritas, do mesmo modo que as duas teorias da emissão e das ondulações da luz não significam uma cisão entre os físicos...



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